Traíras, cidade histórica de Goiás, corre o risco de ruir

Ali teria pernoitado d. Pedro II, que despachou de uma hospedaria e transformou Traíras em capital temporária

Rodrigo Brancatelli, de O Estado de S. Paulo,

01 Agosto 2009 | 18h07

Há algo na alma do sertanejo que o leva a conversar por estrofes e poesia, talvez uma artimanha da vida para compensar as várias dificuldades da rotina, o rosto marcado pelo sol, os calos das mãos. Vilson da Silva Rocha, de 81 anos, dono de olhos que acusam cansaço e mãos que provam o esforço, surdo de um ouvido e muito seletivo no outro, é um desses homens que escolhem as palavras certas sem querer, quase como se quisesse fazer um testamento de sua história. Também fala com o peso de ter de resumir em sentenças a história de sua vila, suas raízes, transformadas em ruínas pelo descaso. “Não foram as casas que ruíram, foi o mundo que caiu”, diz, olhando de soslaio para o sol forte de mais uma manhã sem movimento no povoado de Traíras, bem no norte de Goiás. “Aqui era muito maior, mais pessoas, mas quase todos foram embora. Aí a gente que ficou não teve mais importância. Agora as casas estão acabando de acabar.”

 

 

Seu Vilson mora “desde pequenininho assim” nesse que já foi o maior centro da mineração do Brasil Central no século 18, uma das maiores jazidas de ouro e um dos capítulos mais importantes da época colonial, lugar onde a cobiça transformava homens de todos os lugares do País em eternos garimpeiros, eternos sonhadores, eternos sofredores. Ali, entre 1735 e 1800, 30 mil pessoas tentaram construir novas vidas com a promessa nem sempre verdadeira e a esperança muitas vezes exagerada de encontrar uma pepita dourada. Sem falar nos escravos, que nem esperança podiam ter. Por ali também teria pernoitado d. Pedro II, que despachou de uma hospedaria e transformou Traíras em capital nacional por 24 horas. Ainda assim, o nome do povoado só existe hoje na memória de alguns poucos goianos que insistem em dormir sob as ruínas de velhas residências. Residências essas que correm risco de desabar integralmente, sem exceção, fazendo com que Traíras só permaneça mesmo na poesia dos sertanejos que passaram por lá.

 

Cães na ruina da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a Igreja dos Negros. André Dusek/AE

Apesar de tamanha importância, o local ainda não foi incluído no PAC das Cidades Históricas, do Ministério da Cultura. “Isso aqui já foi muito bom, muito ouro, muita gente”, diz o comerciante Francisco João Pereira, o seu Chico, de 73 anos, todos morados em Traíras, que hoje pertence ao município de Niquelândia e está a quase 350 quilômetros da Goiânia. “Tiravam pedronas daqui viu, coisa grande. Até hoje, quando chove, a gente vê uns brilhantinhos correndo por aí no chão, umas faisquinhas de ouro. Eu mesmo já peguei não faz muito tempo, mas também já vendi. Ouro não guarda, né, meu filho. Mas faz tempo já que as famílias foram embora, deixaram tudo para trás, e as coisas começaram a virar ruínas. As igrejas tombaram, as casas tombaram, só sobrou umas sete delas, que também podem tombar a qualquer momento.”

 

CACHO DE BANANA DE OURO

 

Fundada em 1735 pelo português Manoel Tomar às margens do Rio Traíras, a região só é acessível por meio de uma estradinha de terra que quase nunca recebe visitantes. É um povoado parado no tempo, quieto, lento, onde o relógio parece andar um tanto mais devagar e onde as pessoas ficam nas portas das casas apenas ouvindo o silêncio. Trata-se também de um exemplo feito de pedras e de pregos de madeira sobre o que é o descaso público, a falta de preocupação com o patrimônio e a negligência com a história nacional. Seu Vilson, seu Chico e os outros 30 moradores que ainda resistem na vila caindo aos pedaços parecem ser os únicos que ainda tentam divulgar a memória de Traíras, seja relembrando as vidas que passaram por ali em meio a goles de pinga, no único bar do povoado, seja contando causos tão inacreditáveis que mais parecem ter sido inventados.

 

“Tá vendo aquela parede ali?”, aponta José da Silva Oliveira, “64 anos e cinco meses”, que desde os 11 anos mora no local. “É tudo o que sobrou de uma cadeia pública, a mais conhecida da região. Ela pegou fogo, morreu todo mundo que tava preso. Falam que eles ainda tentaram fugir por um buraco. Até hoje esse buraco existe e já foram encontrados uns ossos por lá. Mas, se é verdade, não sei não.” Seu Chico não gosta de falar em mortes e prefere desfilar seus conhecimentos em histórias sobre o ouro. “Falam que quando d. Pedro veio para Traíras, uma senhora muito rica mandou fazer um cacho de banana de ouro maciço para dar de presente. Falam, né...”

 

Hoje, nada está intacto em Traíras. Metade da casa onde d. Pedro II teria se hospedado já caiu e o restante provavelmente ainda não sucumbiu totalmente por força das rezas de dona Ana João Pereira, de 56 anos, que mora no imóvel. “Tivemos até de derrubar uma pilastra, porque ela estava levando o resto da casa junto para o chão. Agora até que está tudo quietinho, vamos ver por quanto tempo.” A casa de fundição do ouro virou ruínas. O Cartório Civil é hoje residência de dona Maria das Graças França, de 48 anos, que teve de escorar as paredes. Já as 22 lojas, 9 armazéns de secos e molhados e 10 tabernas que chegaram a existir nos tempos áureos da aldeia só se conservam vivas no documento Notícia Geral da Capitania de Goiás, datado de 1783 e um dos poucos papéis oficiais que ainda existem sobre Traíras.

 

 Francisco João Pereira e sua irmã, Ana João Pereira, dona da casa onde ficou Dom Pedro II. André Dusek/AE

 

O mesmo levantamento conta que o povoado tinha 31 lavras de ouro, 28 engenhos e 4.247 escravos. Outro documento que vislumbra um pouco da importância histórica da região é o tombamento da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, uma das três que existiam em Traíras - uma igreja para os brancos, outra para os negros e outra para os mulatos. Carlos Drummond de Andrade, então funcionário do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), escreveu assim no parecer de inscrição 426 de 19 de janeiro de 1955: “Edifício religioso localizado no centro do antigo e próspero arraial de Traíras. Construção do período do ciclo do ouro em Goiás, esta igreja possuía obras de arte em seu interior (...). O arco do cruzeiro era decorado com motivos em interpretação barroca. Os altares laterais em talha, com colunas torsas e baldaquino, se assemelhavam aos retábulos de Minas, na época de d. João V.”

 

IMPORTÂNCIA HISTÓRICA

 

Na década de 70, a três igrejas já tinham virado ruínas (a Nossa Senhora do Rosário exibe atualmente apenas pedaços das paredes e serve como chiqueiro para dois grandes porcos). Um bispo muito conhecido da região teria retirado todos os ornamentos, até mesmo um de 80 centímetros feito de marfim, além dos sinos e castiçais. Segundo o Iphan, os altares surrupiados da Nossa Senhora do Rosário deverão agora ser encontrados, catalogados e preservados, uma vez que eles pertenciam a um local tombado pelo órgão.

 

“Traíras deveria ser preservada pela importância para a história do Brasil”, diz Silvaline Pinheiro, poetisa goiana que luta pelo tombamento da região. Há pelo menos cinco anos, ela pesquisa documentos relativos a Traíras e entrevista moradores na tentativa de guardar um pouco da memória do local. Com a ajuda de uma amiga, Silvaline até localizou documentos em Portugal que mostram que d. Pedro II realmente esteve em Traíras. “Sempre ouvi meu pai falando da beleza de Traíras, o povoado mais importante no século 18. Cheguei até a pegar depoimentos de uma senhora que me contou sobre as torturas que seu avô sofreu ali. Não sou pesquisadora ou qualquer outra coisa parecida, apenas cursei as três primeiras séries. Mas graças ao amor pela leitura aprendi o que todas as pessoas deveriam aprender: a importância de saber a nossa própria história.”

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