Trajetória do avião na pista reforça hipótese de problema no reverso

Em tese, piloto poderia desativar o equipamento e arremeter, mas, para investigador, não houve ''''tempo hábil''''

O Estadao de S.Paulo

21 Julho 2007 | 00h00

O reverso do Airbus A320 da TAM se tornou o grande suspeito de ser o principal vilão da tragédia do vôo 3054 por dois motivos. O primeiro é a trajetória do avião na pista principal de Congonhas. As filmagens mostram o equipamento em funcionamento pouco antes de o Airbus virar repentinamente à esquerda. O segundo é o histórico do avião. O reverso da turbina direita havia apresentado um defeito, segundo informou a TAM, na sexta-feira. O Airbus voava com ele pinado, ou seja, desativado. Assim, quando o Airbus pousou, só o reverso esquerdo estava funcionando. Um membro da comissão de investigação do acidente disse ontem ao Estado que todo piloto tem capacidade para fechar o reverso aberto e dar potência nas turbinas a fim de arremeter. O problema é o tempo necessário para executar essa manobra incomum. ''''Não havia tempo hábil'''', disse o investigador. A possibilidade de que o reverso esquerdo aberto tenha prejudicado a manobra de arremetida do avião é uma das hipóteses apuradas pela Aeronáutica. Ela pode justificar a curva à esquerda que o avião fez na pista do aeroporto. Para militares e especialistas em vôo ouvidos pelo Estado, é certo que houve uma ''''assimetria revelada pela maior potência de motor do lado direito e maior arrasto do lado esquerdo'''' quando o Airbus já estava com o bico no ar, apenas raspando os trens de pouso das asas no solo. Sabe-se que o avião tinha retirado o trem de pouso dianteiro (bequilha) do solo por que ele não deixou marcas no trecho final da pista. Isso significa que o avião se preparava para arremeter e começava a ter sustentação para decolar - não se sabia ainda a razão que levou o piloto a tomar a decisão de arremeter. Perto dos últimos 300 metros da pista, algo fez o Airbus virar à esquerda. ''''Uma assimetria provocou esse movimento'''', disse o especialista em segurança de vôo Roberto Peterka. Para ele, ainda é cedo para saber o que causou a assimetria. Suspeita-se que o avião ganhou mais potência no motor direito do que no esquerdo, o que provocaria a deriva. O reverso é uma hipótese forte como causa dessa assimetria porque ele precisa fechar para a turbina ganhar potência. Com o equipamento direito pinado e o esquerdo aberto, a turbina direita ganharia potência antes da outra. Acredita-se que o reverso esquerdo do Airbus abriu quando ele pousou por causa da quantidade de água em torno da turbina exibida nas filmagens do pouso feitas pela Infraero. O fato de testemunhas não terem observado o reverso abrir é explicado por Peterka pelo fato de o equipamento ficar dentro da turbina. O barulho do motor acelerando encobrira o do reverso. Mas outros equipamentos também podem ter falhado, justificando a curva à esquerda, como o antiskid (sistema de freio hidráulico, que devia ser desligado) e o speedbreak (freio aerodinâmico sobre as asas). Uma abertura errada dos flaps ou uma perda de potência na turbina esquerda causada por uma pouco provável explosão também causariam a assimetria. Para essa última hipótese, a turbina esquerda teria queimado assim que o comandante pôs toda potência para decolar. ''''Isso pode ter queimado a turbina esquerda'''', disse o brigadeiro Renato Cláudio Costa Pereira, ex-secretário-geral da Organização Internacional da Aviação Civil (Icao, na sigla em inglês). O brigadeiro Jorge Kersul Filho, do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), confirmou que marcas na pista demonstram o desvio do avião. Nesse momento, os trens de pouso das asas ainda mantinham contato com o solo. Ao sair da pista principal, o avião entrou no gramado que a separa da área de taxiamento. Os trens de pouso das asas rasparam a grama, deixando sulcos. Caso o Airbus estivesse inteiramente no solo, seu peso de 62,5 toneladas faria os trens de pouso se enterrarem. Eis porque os peritos acham pouco provável que o piloto tenha tentado uma manobra para frear in extremis a aeronave, como foi cogitado anteontem. Ao sair do gramado, o avião entrou na pista de taxiamento. Nela, os pneus deixaram marcas de atrito com o concreto antes de baterem na borda da cabeceira. Oficiais da Aeronáutica disseram que o fato de os trens de pouso terem raspado o gramado e a borda pode ter contribuído para sua perda de sustentação, comprometendo ainda mais a arremetida. ''''O avião chegou a sair do chão, mas sem velocidade de rotação'''', disse o brigadeiro Pereira. Ao sair o aeroporto, ele inclinou-se à esquerda e caiu lateralmente no prédio.

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