Transferência de Beira-Mar irrita autoridades do RJ

O traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, foi transferido da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, para o presídio de segurança máxima Bangu 1, no complexo penitenciário de Bangu, na zona oeste do Rio. Ele foi deslocado por decisão judicial da Vara de Execuções Criminais (VEC) do Distrito Federal, a contragosto da cúpula da Segurança do Rio. A transferência do traficante modificou todo o esquema de policiamento no Estado. O secretário de Segurança Pública, Roberto Aguiar, ordenou o reforço da segurança em todos os presídios do Rio. Determinou ainda aumento do policiamento nas áreas de influência do traficante - a favela Beira-Mar, em Duque de Caxias, e a Rocinha, na zona sul carioca. A segurança de pessoas ameaçadas por Beira-Mar também foi ampliada. "Todo esse efetivo deveria estar nas ruas, protegendo o cidadão comum", disse o secretário."Estou profundamente ofendido com essa transferência. Porque nós estamos fazendo um esforço imenso pela segurança no Estado, e a vinda dele vai acirrar o confronto entre os grupos rivais. Foi uma escolha meramente formal, e a pior possível", afirmou Aguiar. Ele não havia sido informado oficialmente pela Polícia Federal da transferência do traficante até as 18 horas de hoje. Beira-Mar já estava no Estado desde as 12h30.Aguiar disse que recebeu informação do titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (Delepren-PF), Paulo Rosa, de que a transferência de Beira-Mar havia sido acertada entre o Ministério da Justiça e o ex-secretário de Segurança Pública, coronel Josias Quintal. "Não admito que se faça da segurança dos cidadãos casca de banana em cima da gente", afirmou o secretário. Josias Quintal não foi encontrado para comentar as declarações.Aguiar informou que vai procurar o ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, para pedir a transferência de Beira-Mar para uma unidade federal. "O ministro é outro, o secretário é outro. Vamos ver se chegamos a bom termo através do diálogo", afirmou. Do contrário, Aguiar informou que vai pedir à Justiça a nova transferência de Beira-Mar. Ele enumera as razões: os delitos de Beira-Mar (tráfico de drogas) são federais; ele é um preso de projeção internacional - foi denunciado por conspiração contra o governo americano e é suspeito de envolvimento com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) -; o traficante é foragido da Justiça de Minas Gerais e, pela "boa norma", deveria ter sido devolvido para aquele Estado. "Além disso, uma decisão judicial não pode se sobrepor à ordem pública. Não é um juiz de VEC que vai mexer numa unidade da federação", afirmou Aguiar.O procurador-geral de Justiça, José Muiños Piñeiro Filho, divulgou nota manifestando preocupação com a transferência. "A presença do traficante no Estado poderá reacender uma guerra entre as lideranças do tráfico, cujas conseqüências poderão ser bastante perniciosas para a sociedade fluminense, que terá de assumir mais este ônus", diz o texto. Para Piñeiro Filho, a transferência decorreu de "decisão de natureza política".ViagemBeira-Mar embarcou às 9 horas no Aeroporto Internacional de Brasília num avião da PF, prefixo PR-AAC. Na ocasião, o superintendente da PF do Distrito Federal, Euclides da Silva Filho, declarou estar "aliviado". Ele disse ter recebido informações de que duas facções tentariam resgatar o traficante da carceragem da superintendência.Escoltado por cinco delegados federais, Beira-Mar levou três horas e meia para chegar ao Rio. Ele desembarcou no Aeroporto Santos Dumont às 12h30. Chegou algemado, vestindo camisa e calça azuis. Depois de permanecer 10 minutos na pista, o traficante foi colocado num carro da PF e levado para Bangu 1. Sete veículos da Polícia Federal acompanharam o carro que transportava Beira-Mar.O traficante está numa das celas da galeria A do presídio. Ele terá como vizinho de galeria o traficante Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP do Alemão, seu companheiro de facção. Mas também estará próximo de desafetos. Seu maior inimigo, o traficante Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, ocupa uma cela na galeria B."Ele não será tratado como preso. Mas como facção", afirmou o secretário de Segurança. Isso significa que Beira-Mar não terá contato com nenhum outro preso de Bangu, a não ser aqueles com quem divide a galeria A. O traficante dormirá numa cama de alvenaria, coberta por colchão. E não tem direito à TV individual: terá de assistir à que fica no corredor da galeria, e que só é ligada durante o dia. O secretário de Justiça, Paulo Saboya, informou que serão feitas revistas periódicas para evitar que Beira-Mar utilize telefone celular.Beira-Mar foi condenado a seis anos e três meses de prisão por assalto, em 1994, pela 1.ª Vara Criminal de Petrópolis. A Justiça mineira o condenou a 21 anos de detenção por tráfico. Ele responde ainda a inquéritos na 3.ª Vara Criminal de Caxias, na Vara Criminal de Cabo Frio, e na Justiça da Paraíba.

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