Transferências e deslocamentos de presos facilitam resgates

As transferências e os deslocamentos de detentos dos presídios onde cumprem pena para fóruns e penitenciárias distantes vêm criando, há algum tempo, condições para o resgate de criminosos perigosos, como seqüestradores, traficantes e ladrões de banco, blindados e prédios de luxo.O resgate nesta quinta-feira do assaltante e seqüestrador Dionísio Aquino Severo, condenado a 45 anos e respondendo a outros processos que podem aumentar sua pena para até 100 anos, é um exemplo.Numa ação digna de filmes, Severo saltou do pátio da Penitenciária José Parada Neto para a cabine de um helicóptero seqüestrado no trajeto entre o Campo de Marte, zona norte de São Paulo, e Guarulhos.Severo aguardava escolta para voltar ao presídio de origem, a penitenciária de segurança máxima de Itirapina. Ele havia sido transferido em agosto para São Paulo, para ser ouvido pela Justiça. Deveria ter retornado muito antes do fim do ano.O delegado Godofredo Bittencourt Filho, diretor do Departamento de Investigações Sobre o Crime Organizado (Deic), não tem dúvida de que o objetivo dos homens que seqüestraram o helicóptero era libertar Severo."O outro que escapou (Aílton Alves Feitosa) deve ter entrado na carona por ser amigo de Severo", acredita. Um levantamento da polícia revelou que, quando um preso precisa ser transferido, é grande o número de pessoas que ficam sabendo do percurso.Esse processo de deslocamento começa pela solicitação de um juiz. O pedido é encaminhado por fax para as Coordenadorias dos Estabelecimentos Penitenciários, que retransmitem a mensagem para a unidade do detento. No presídio, o diretor-geral e o de Disciplina tomam conhecimento e fazem pedido de escolta à Polícia Militar. Funcionários da garagem também são informados.Telefone e visitas constantes abrem o planejamento dos resgates. Um agente penitenciário afirmou que hoje o detento dá mais valor a um celular do que a um revólver.Pelo telefone, o preso acerta preços, faz contato com cúmplices em liberdade e lhes informa tudo sobre a situação do local em que se encontra, como é a segurança e o horário de troca da guarda nas muralhas.Para Bittencourt, impedir resgates exige um trabalho que envolva Ministério Público, Poder Judiciário e polícia. "É necessário que se monte um cadastro dos detentos mais perigosos, dos ladrões de bancos e traficantes com condenações altas. Todas as vezes em que um desses bandidos for solicitado para audiências, a polícia e o cadastro devem ser consultados."O delegado diz que o número de criminosos de alta periculosidade no sistema carcerário não chega a 200. "O que não pode é permitir a um bandido com dinheiro e cúmplices arrojados ficar em lugares vulneráveis."Enquanto isso não ocorre, o número de resgates aumenta. Os ladrões de bancos, de prédios de luxo, blindados e empresas de transporte de dinheiro, José Carlos Rabelo, o Pateta, e Alexandre Pires Ferreira, o ET, foram resgatados em maio na Rodovia Castelo Branco. Seus cúmplices atacaram os quatro policiais militares da escolta, matando um.A polícia recapturou ET dois meses depois, na zona sul da capital. Pateta foi localizado no fim de 2001, no Parque do Ibirapuera. Os cúmplices teriam pago R$ 200 mil pelo resgate. ET está num presídio do interior, e Pateta, que cumpria pena no rígido anexo da Casa de Custódia de Taubaté, foi transferido para a Penitenciária do Estado.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.