'Transmissão proposital passa estritamente pelo prazer'

Promotor de festas de sexo afirma que transmissão proposital do vírus é um fetiche

Edgar Maciel, O Estado de S. Paulo

22 de fevereiro de 2015 | 03h00

Formado em Economia, C.S., de 26 anos, entrou no ramo das festas de sexo aos 23. Semanalmente, promove encontros entre jovens em um clube no centro de São Paulo. Por lá, a camisinha é item obrigatório logo na entrada. No entanto, nos últimos anos, o evento tem enfrentado concorrência do “clube do carimbo” que, segundo ele, vem crescendo em quantidade e público na cidade. “Nos próximos anos, eles vão virar tendência no meio LGBT”, afirma. A justificativa para a transmissão proposital passa estritamente pelo prazer. “É uma mistura de fetiche e um ato libertário do vírus”, acredita.

Como funcionam as festas?

Nos últimos cinco, seis anos essas festas aumentaram bastante em São Paulo. No começo da minha adolescência, se ouvia falar pouco delas e hoje é muito comum no meio LGBT. Existe uma dualidade das pessoas que falam que não fazem, mas, na verdade, praticam diariamente. Isso acontece no boca a boca. Nada é exposto. Em São Paulo, as festas são capilarizadas. São pequenas, com no máximo 20 pessoas. Quando chega o dia, eles tiram a camisinha e começa a roleta-russa. É uma loteria misturada com adrenalina, segundo eles.

Você conhece o “clube do carimbo”, pessoas que transmitem o HIV propositalmente?

Tenho contato diário com as pessoas em grupos na internet e no WhatsApp. É um público diferente do meu, mas existe muito. Já vi escrito em grupos em que eu estava. Muitos falam: ‘Se a pessoa transou comigo sem perguntar, eu não tenho obrigação de informar. A culpa é dela’. São pessoas que eu tenho boa relação, mas compartilham dessa ideia. Acho que isso é pura sacanagem.

Por que eles fazem isso?

Existe a questão da falta de perspectiva. Para eles, tanto faz como tanto fez ser contaminado. E outro ponto que eles justificam é que, com o tratamento disponível, não há risco de morte, vivendo normalmente. E isso desencadeia um ato libertário da camisinha, porque, no momento em que você se contamina e tem remédios, eles consideram que o sexo fica mais livre.

É uma válvula de escape do soropositivo, que se vê com raiva de estar contaminado e quer repassá-lo?

Antigamente, talvez sim, mas hoje não mais. Acho que existe um sentimento libertário, mas para muitas pessoas é um fetiche. Acho que essa é a palavra que resume essa prática. Hoje, a gente vive o auge dessa prática de contaminação. Nos próximos dois, três anos em São Paulo isso vai ser uma tendência no meio LGBT. Eu mesmo, na festa que organizo, que prezo pela camisinha, já vi pessoas fazendo e precisei expulsar. É uma responsabilidade do organizador também. Se eu vejo e não retiro, sou um coautor da transmissão. 

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