Transplantada ligou da calçada para o marido

Sem informações oficiais, parentes estavam aflitos pela hora da visita

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

26 de dezembro de 2007 | 00h00

Às 23 horas da noite da véspera do Natal, o aposentado José Eustáquio, de 63 anos, estava na casa do filho, comemorando, quando recebeu um telefonema inesperado. Era a mulher, Vera Eustáquio, de 52 anos, que há dois dias havia passado por uma cirurgia de transplante de rim no Hospital das Clínicas. "Ela pegou o celular de uma paciente para me avisar que o hospital estava pegando fogo", conta Eustáquio, que ficou desesperado ao ouvir a notícia. Vera ocupava um leito do 7º andar do prédio do Instituto Central do HC. No andar de cima, há uma comunicação interna com o Prédio dos Ambulatórios, que pegou fogo na véspera de Natal. O incêndio começou no subsolo e a fumaça se alastrou pelo tubo de ventilação, invadindo depois o IC. Médicos, enfermeiros e voluntários tiveram de remover rapidamente pacientes do 8º andar - o mais afetado, onde funciona a hematologia. Até que chegou a vez do 7º andar, onde ela estava. Assim que ouviu o relato da mulher, Eustáquio pegou o carro e foi para o HC. "Cheguei em 15 minutos", comenta o aposentado, que mora em Guarulhos, na Grande São Paulo. "Ela estava muito nervosa ao telefone." Quando Eustáquio chegou em Pinheiros e viu a confusão na frente do HC, seu coração ficou ainda mais apertado. Estavam ali equipes da Defesa Civil, da Polícia Civil, da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana. Havia até marronzinho da Companhia de Engenharia e Tráfego (CET) carregando pacientes nos braços. Muitos doentes estavam na calçada. "Tinha um com a perna amputada", lembra. "Mas quando vi minha mulher sentadinha na portaria do hospital fiquei bem. Ela estava bem." SEM PODER CORREREstáquio conta que a mulher ficou muito assustada por ter de abandonar o centro médico no meio da noite, principalmente, porque diziam que o prédio estava em chamas e ela não poderia correr. Depois de confortá-la e de se assegurar de que tudo não havia passado de susto, ele voltou para casa aliviado. Ontem, às 16 horas, retornou ao hospital para visitá-la. Mas teve de pegar fila. Muitos parentes souberam do incêndio apenas pela manhã. Foi o caso do supervisor de vendas Laércio Salerno Rosa, de 47 anos, que também estava na fila de visitas para ver a mãe, Maria de Lourdes, de 82, internada na UTI do Pronto-Socorro do HC, há sete dias, por causa de uma pneumonia e de uma anemia grave. A notícia do incêndio veio por uma sobrinha, médica do HC. "Ela ligou para me tranqüilizar", diz Rosa. "Mas até então eu nem sabia o que havia acontecido."SEM NOTÍCIASAo contrário de Rosa, que tinha certeza de que a mãe estava bem, muitos familiares e amigos de pacientes internados estavam na fila de visitantes ainda aflitos pela falta de informação. "Eu liguei para o hospital várias vezes e disseram que teria de vir até aqui para saber como estava meu sobrinho", diz a costureira Cássia Maria Amorim, de 42 anos. Vítima de um acidente de moto há um mês, seu sobrinho, Rodrigo Moura, de 21, foi submetido a um processo de coma induzido para se recuperar do traumatismo craniano provocado pelo acidente. Ele também teve fraturas pelo corpo. Cássia foi visitá-lo acompanhada da irmã, Solange, de 38, e do pai, o taxista Antônio Moura, de 59."Meu filho está melhor. Ele voltou a ter reflexos. Mas estou preocupado, desde que ouvi no rádio a notícia de que o hospital pegou fogo. Quero vê-lo. Como só podem entrar duas visitas e minha nora e minha mulher já entraram, não sei se vou vê-lo."Solange e Cássia também ficaram do lado de fora. Na portaria, a mulher de Rodrigo, Sol, que espera bebê para janeiro, tentou em vão dar um jeitinho para que mais alguém entrasse. "A família é grande", explica Antônio. "Somos 20. Quando falei do incêndio, todos queriam vir. Não deixei e não conseguir entrar assim mesmo."

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