Uli Seit/The New York Times
Uli Seit/The New York Times

Transporte público em queda nas cidades ricas

Trabalho remoto, Uber, empréstimos baratos para carros e internet estão entre os culpados

O Estado de S.Paulo

24 Junho 2018 | 03h00

Juana, que veio da Guatemala para os Estados Unidos, costumava pegar o ônibus para seus trabalhos de limpeza. Isso a deixava esgotada. Caminhar até o ponto de ônibus após um longo dia de trabalho era exaustivo, especialmente quando chovia, como acontece ocasionalmente em Los Angeles. Agora, Juana dirige para todos os lugares, até mesmo para o supermercado local, a alguns quarteirões de distância. Ela tinha duas metas: aprender inglês e comprar um carro. Cumpriu ambas.

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Embora Los Angeles tenha se organizado em torno do carro desde a Segunda Guerra Mundial, tentou mudar isso com muito mais empenho que outras cidades americanas. Desde 1990, os eleitores aprovaram três aumentos de impostos para pagar pelo transporte público. Uma rede ferroviária e de ônibus rápido foram construídas rapidamente – pelos padrões do mundo rico, não dos chineses. Mas usuários de transporte público estão diminuindo. Nos últimos cinco anos, o número de viagens na região metropolitana de Los Angeles caiu 19%.

A Cidade dos Anjos lidera amplo declínio no setor. Os números da Associação Americana de Transporte Público mostram que o número de viagens no país, em geral, caiu em cada um dos três últimos anos. Em 2016-17, todo o tipo de transporte público de massa tornou-se menos requisitado: ônibus, metrô, trens e bondes. Os nova-iorquinos realizaram 2,8% menos viagens por transporte público nos dias úteis e 4,2% menos viagens nos fins de semana, nos 12 meses até abril de 2018, ante o ano anterior. Em Chicago e Washington, a queda nas viagens por transporte público tem sido ainda mais acentuada.

O transporte público está se mantendo melhor em outros países ricos, mas não muito. Em Toronto, as viagens de adultos caíram todos os anos desde 2014 (a cidade tornou o transporte público gratuito para crianças pequenas e, portanto, o número delas aumentou). Em Londres, as viagens de ônibus caíram 5% desde o ano fiscal de 2014-15. O metrô de Londres permaneceu mais popular, embora até março de 2018 o número de viagens pelo “Tube” tenha diminuído em 19 milhões, ou 1,4%. Isso apesar do crescimento anual da população londrina, de cerca de 1% e um aumento de 3,3% em empregos no ano passado. O metrô de Paris transportou em 2017 apenas a mesma quantidade de passageiros que em 2012. Em Berlim, as viagens de transporte público estão crescendo em um ritmo de cerca de metade do emprego.

Mas existem exceções. Mais pessoas estão usando o transporte público em Sydney e Tóquio. E algumas agências de transporte podem apontar razões específicas para o esvaziamento de ônibus e trens. Londres e Paris sofreram ataques terroristas. O metrô de Nova York está “rangendo” – consequência do prolongado período de baixo investimento em reparos. Em outros lugares, o que se diz é que o mau tempo ou obras em estradas estão dissuadindo as pessoas de usarem ônibus.

Mas a demanda por transporte público em massa enfraqueceu em tantas cidades do mundo rico ao mesmo tempo que explicações únicas parecem inadequadas. Não muito tempo atrás, o crescimento anual de passageiros de mais de 2% era normal, e os observadores consideravam que o carro particular estava em alta. O declínio recente, que já é ruim o suficiente ano a ano, parece ainda pior quando comparado às previsões das agências de transporte. Em Nova York, por exemplo, as viagens de ônibus nos primeiros quatro meses deste ano foram 7,6% menores do que a agência esperava. Algo parece estar afastando as pessoas dos trens e ônibus. Mas o quê?

Uma explicação, que é convincente para algumas cidades, é que o transporte público se deteriorou. Veja-se o caso de Madri, diz Richard Anderson, analista de transportes do Imperial College de Londres. Lá, as viagens pelo transporte público caíram a partir de 2008, como era de se esperar em um país atingido pela recessão, com aumento do desemprego. Em resposta à crise, a cidade cortou serviços. As pessoas perceberam e distanciaram-se. Entre 2007 e 2013, o metrô de Madri perdeu 19% de seus clientes. Os níveis de serviço, percepções e demanda melhoraram desde aquela época, mas o metrô permanece mais tranquilo do que costumava ser antes da crise financeira.

Em outros lugares, porém, os clientes estão desaparecendo, mesmo que o transporte público seja tão bom quanto era ou ainda melhor. Talvez o transporte público esteja sendo encarado de forma relativamente desanimadora porque as pessoas adquiriram melhores opções.

O Uber, o Lyft e outros serviços de “carona compartilhada” provavelmente estão atraindo as pessoas para longe dos trens e ônibus, assim como estão acabando com o setor de táxis. Em São Francisco, o transporte público responde por 16% das viagens em dias de semana, e os de viagens por aplicativos por 9%. As pessoas em geral parecem usar o Uber e o Lyft para chegar a lugares bem servidos pelo transporte de massa. Estudo da cidade feito por cinco acadêmicos californianos perguntou aos clientes de serviços por app como eles teriam feito sua viagem mais recente, se o serviço não existisse. Um terço respondeu que teria usado o transporte público. Em estudo de Boston, 42% disseram o mesmo.

É provável que os táxis autônomos roubem ainda mais passageiros no futuro, porque serão muito baratos. Eles podem ameaçar o transporte público antes mesmo de aparecerem nas estradas. No mês passado, os eleitores em Nashville rejeitaram esmagadoramente um plano para construir várias linhas de bonde e ônibus rápido. Os opositores do plano argumentaram que carros e ônibus autônomos logo seriam a maneira mais barata e melhor de transportar pessoas. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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