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Transtornos mentais são maiores entre atingidos

Sérgio Rossi, de 32 anos, coordenador de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde

Roberta Jansen, Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2017 | 03h00

MARIANA - Para atender às pessoas que perderam suas casas na destruição de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira – e que até hoje estão morando provisoriamente em casas alugadas pela Samarco em Mariana –, a Secretaria Municipal de Saúde criou uma rede de atenção psicossocial, formada por psicólogos, psiquiatras e terapeutas ocupacionais, sob o comando de Sérgio Rossi, de 32 anos, coordenador de Saúde Mental da secretaria.

Se na população em geral os transtornos mentais costumam atingir 1% dos indivíduos, o percentual chega a 10% entre os atingidos pela lama. Do total de aproximadamente 1.300 atingidos, de 150 a 200 estão em acompanhamento constante. Depressão, isolamento social e abuso de álcool e drogas são os problemas mais recorrentes.

“Logo no primeiro mês vimos que não daria para atender a demanda, que seria preciso ter um grupo específico”, conta Rossi. “Usamos como modelo o trabalho feito em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, depois do incêndio da Boate Kiss.”

O especialista explica que as pessoas que tiveram suas casas e seus vilarejos destruídos pela lama estão vivendo sob intenso sofrimento social.

“Além de terem enfrentado um evento traumático, que foi o rompimento da barragem e a fuga da lama, é preciso lembrar que Bento é um vilarejo que existia há mais de 200 anos. Paracatu a mesma coisa. A relação familiar, o convívio com os vizinhos, o trabalho no campo: todo o modo de vida dessas pessoas foi brutalmente encerrado”, afirma Rossi.

“Dois anos já se passaram e ainda não há perspectiva sobre quando vão se estabelecer em uma nova comunidade. A vida na cidade segue uma dinâmica social a qual não estão acostumados. Eles são agricultores. ‘Passarinho na gaiola’ é a metáfora mais recorrente”, enumera.

Como se não bastasse tudo isso, os atingidos começaram a ser hostilizados na cidade por conta de uma lógica torpe. Eles têm os aluguéis das casas e apartamentos em Mariana pagos pela Samarco. E recebem um cartão de alimentação no valor de R$ 1.200.

A interrupção do funcionamento da mineradora por conta do rompimento da barragem fez o percentual de desemprego na cidade subir de 5% para quase 25%. E quem acaba pagando o pato são os atingidos, que recebem auxílio.

“Houve um processo de hostilização”, atesta Rossi. “As pessoas entendem (o cartão e o pagamento do aluguel) como benefício, não reparação. É mais fácil responsabilizar os atingidos do que direcionar isso contra a empresa.”

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