'Tratam corpos como objetos', diz familiar de vítimas do voo 447

Parentes querem que análise da caixa preta seja feita por um país neutro, já que a França responde processo pelo acidente

Tiago Rogero, Estadão.com.br

02 de maio de 2011 | 12h39

RIO - O resgate da primeira das duas caixas-pretas do Airbus A-330 da Air France, que fazia a rota Rio-Paris e caiu no oceano, em 31 de maio de 2009, deixando 228 mortos, mexeu com os sentimentos das famílias das vítimas. Quase dois anos após o acidente, familiares reclamam da falta de apoio e respeito por parte da companhia aérea e do governo francês, e cobram que a análise do equipamento seja feita por um "país neutro."

 

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"Eles (França) respondem a processo. Não podem ser os responsáveis pela análise", defendeu a nutricionista Sylvie Mello, que perdeu o irmão e a cunhada em viagem de lua de mel a Paris. Segundo ela, o resgate da caixa-preta não traz conforto para as famílias. "Para nós, o que tinha que acontecer, já aconteceu. A localização da caixa pode significar algo só para o futuro, para evitar ocorrências deste tipo", disse.

 

Sylvie conta que a família recebeu com tristeza a informação da ministra francesa dos Transportes, Nathalie Kosciusko-Morizet, de que os corpos encontrados serão levados primeiro para a França, e não para o Brasil. "Minha família está toda em choque. Meu pai, minha mãe. Tenho familiares em depressão. Daí, com esta notícia, surgem várias perguntas: será que os corpos deles (irmão e cunhada) serão resgatados? Será que vão ser os dois, ou um só?"

 

A nutricionista critica a prioridade, nas buscas, ao resgate das caixas-pretas, e cobra uma preocupação maior com a procura dos restos mortais. "Eles tratam os corpos como meros objetos, como se fossem malas, e não vítimas", disse.

 

A fotógrafa brasileira Alexandra Salvador, que perdeu o noivo, o diplomata suíço Ronald Dreyer, disse que faz questão de não acompanhar as notícias a respeito dos desdobramentos da tragédia. Ainda assim, ficou sabendo do resgate da caixa. "Tomo conhecimento pelos amigos, que se preocupam, mas, sinceramente, estou muito desgastada com isso tudo. São dois anos", disse.

 

Decepcionada com o tratamento que tem recebido do governo francês e da Air France, Alexandra considera a localização do equipamento "mais uma ação de marketing, tudo parte de um 'circo' criado pelo BEA" (Escritório de Investigações e Análise para a Aviação Civil), órgão do governo francês. "Se puderem ser punidos, bem, mas já não acompanho tudo isso", disse.

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