Trem-bala tem custos incorretos, diz engenheiro

Comitê Brasileiro de Túneis aponta discrepâncias no estudo do governo; protejo une Campinas, SP e Rio

Eduardo Reina, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2009 | 00h01

Os custos para construção do trem de alta velocidade (TAV) entre Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas apresentam várias discrepâncias, principalmente quando se compara preços de escavação de túneis. A comparação foi feita pelo presidente do Comitê Brasileiro de Túneis, Tarcísio Celestino, com base no próprio estudo elaborado para a obra pelo governo federal. Os túneis em área rural, por exemplo, são 46% mais caros que na área urbana, quando normalmente ocorre o contrário. O preço de escavação de túnel simples - com uma via e 7,85 metros de diâmetro - pelo método NATM (com explosivos que abrem buracos e o maciço recebe concreto projetado) - é 17% mais caro que o equivalente no túnel duplo com 16 metros de diâmetro, quando o oposto deveria acontecer.

 

 

Nos 510 quilômetros do traçado do trem bala, 90,9 quilômetros, equivalente a 18% da obra, devem ter túneis, segundo o estudo elaborado pelo consórcio Halcrow/Sinergia, contratado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para o projeto. As obras civis, que incluem também 107,8 quilômetros de pontes e viadutos, vão custar R$ 24,5 bilhões, cerca de 71% de todo o projetado orçado em R$ 34,6 bilhões.

 

Celestino aponta também que o preço do metro escavado de túnel em local onde o solo é composto por rocha é somente 4% mais barato do que o mesmo serviço em local onde o solo é mole, sem interferência de rochas. "Em casos reais de rocha de boa qualidade, a diferença pode superar 50%. Não vou dizer que a obra é cara ou barata, mas a planilha é inconsistente. Apoiamos o empreendimento, mas há necessidade de apontar mudanças de rumo que esse projeto necessita ", disse o presidente do CBT, no seminário "A engenharia nacional e o TAV", no Instituto de Engenharia no último dia 28.

 

O metro escavado de túnel numa área rural, sem grandes interferências na superfície, foi estimado no estudo do TAV em R$ 160,9 mil, enquanto em área urbana, com todas as interferências possíveis de uma cidade, o custo é de R$ 86,7 mil o metro. "A sugestão é adotar túnel de 7,85 m em área rural. terá menor risco e economia de 46,1%", diz Celestino. Estão previstos 18.778 metros de túneis duplos de 16 metros de diâmetro em área rural em todo o traçado, além de 46.571 metros de túneis simples de 7,85 metros de diâmetro em áreas urbanas.

 

Já o custo orçado para escavar túnel simples de 7,85 metro de diâmetro pelo método NATM é de R$ 1.380 o metro cúbico, apenas 17% mais caro que o mesmo serviço num túnel duplo com 16 metros de diâmetro, estimado em R$ 1.180 o m³, segundo o estudo da ANTT. "O túnel de maior dimensão exigirá demolição de concreto utilizado como suporte temporário na construção, além de maior quantidade de tratamento para estabilização de uma frente de escavação", explica Celestino.

 

'TROPICALIZAÇÃO'

 

De acordo com Hélio França, superintendente da ANTT, os preços estimados no estudo da Halcrow/Sinergia tiveram como base a construção de túneis em vários países da Europa e também no Metrô de São Paulo e no Rodoanel, mas os preços apontados são apenas "uma referência" para balizar o edital de construção e concessão do empreendimento, que será lançado em breve.

 

"Foram usados valores referenciais internacionais. Nós tropicalizamos os custos, usando o Sisco, um sistema de custos do Dnit, que o próprio TCU utiliza e os empreiteiros não gostam", afirma França. "O consórcio se baseou em preços do Dnit. Isso é uma barbaridade. Há grande quantidade de obras do Dnit com preço subestimado e muitas outras com sobrepreço. Os preços discrepantes são uma porta aberta para futuros aditivos (reajustes no contrato)", alerta Edemar Amorim, do conselho consultivo do Instituto de Engenharia.

 

Ao se fazer a comparação com custos internacionais, as estimativas brasileiras também são discrepantes. O túnel São Gotardo, de 57 quilômetros de extensão sob os Alpes custou 30 mil euros por metro. "O São Gotardo é a joia da coroa. Um dos melhores do mundo, com 2 mil metros de rocha acima dele. O custo da via singela na Suíça é R$ 154.200 (ou R$ 2.200 o metro cúbico), e aqui R$ 86.700 (R$ 1.790 o m³). Sendo que lá há o problema dos Alpes sobre o túnel", aponta o presidente do CBT. O chefe de controle do Alp Transit Gotthard, da Suíça, Hanz Ehrbar, informou através de email que o custo de escavação em toda a obra do túnel variou de 15 mil euros a 150 mil euros, levando em conta todos os aspectos geológicos.

 

"Tenho dúvidas nesses questionamentos, não podemos comprara custos europeus e custos brasileiros. Os custos são uma referência", defende o superintendente da ANTT. "Como se pode iniciar um empreendimento desse porte com estudo de pré-viabilidade, com sondagens a cada 40 quilômetros", critica também João Antonio Del Nero, membro do conselho de direção do Sindicato da Arquitetura e Engenharia (Sinaenco).

 

O responsável pelos estudos geológicos-geotécnicos do TAV, André Pacheco de Assis, presidente do Comitê Sobre Treinamento e Educação do International Tunnelling Association, disse que foram realizadas 519 sondagens em solo e rochas em todo percurso proposto, num período de 75 dias. "Os custos já foram revistos porque não estavam adequados. O traçado apresentado está aprovado pelo governo federal e atende os requisitos das pessoas que vão usar o TAV", observou.

 

CRÍTICAS

 

A utilização de área do Aeroporto do Campo de Marte para construção da estação São Paulo do trem de alta velocidade (TAV) foi criticada pela Prefeitura de São Paulo. "Não fomos procurados até agora para discutir isso. A utilização do Campo de Marte como estação do TAV vai prejudicar a ampliação do Complexo do Anhembi. São Paulo registra crescimento de feiras em 320% de 1992 (92 eventos) para 125 em 2007.

 

Sem ampliar o Anhembi não temos condições de absorver mais eventos", alega Sergio Salvadori, da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana de São Paulo. "Foram estudadas 20 alternativas para a estação na capital e a Barra Funda foi descartada. Na Barra Funda há linha do Metrô, da CPTM, de ônibus municipais e intermunicipais, tudo o que uma estação do trem bala precisa", diz Salvadore.

 

"Não é possível construir uma estação do TAV na Barra Funda. O trem vai ‘dormir’ em São Paulo, não há espaço público para construir as plataformas lá. Campo de Marte tem potencial de área pública. Quanto a ligação da estação com o transporte público, é o metrô e o ônibus que vão até a estação do TAV, não o trem que vai até o metrô. É assim em qualquer lugar do mundo. Se pensa numa ligação de Campo de Marte com a Estação Carandiru do Metrô", explica Hélio França, superintendente da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

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