Trem com mais de mil pessoas ficou ilhado por 6 horas e meia

Com temporal, Tamanduateí transbordou e água ficou a 20 cm do piso dos vagões; alguns passageiros fugiram a nado

Laura Diniz, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

Uma noite de desespero. Assim passageiros da Linha D da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (Luz-Rio Grande da Serra) descreveram as seis horas e meia em que passaram ilhados, anteontem, num dos trens da CPTM, entre as Estações Tamanduateí e Ipiranga.Com a forte chuva de anteontem, o Rio Tamanduateí transbordou e atingiu a linha do trem, que saíra às 19h30 da Estação Brás. Cerca de 15 minutos depois, na Estação Tamanduateí, o condutor se deu conta de que não seria possível seguir viagem, pela grande quantidade de água na pista. Ele tentou voltar para a Estação Ipiranga, mas também havia muita água. Resultado: ficou parado, até as 2 horas, no meio do caminho."A água ficou a uns 20 centímetros do piso do trem", disse a assistente de atendimento ao cliente Caroline de Almeida Campos, de 24 anos. Cerca de cem pessoas estavam no vagão dela - havia mais de mil no trem. "Tinha idosos em pé. Um deles e um senhor de meia idade passaram mal por causa do marcapasso, porque, segundo os bombeiros, aquela região tinha muita atividade eletromagnética. Esses dois e algumas pessoas mais velhas tiveram tontura, palpitações e foram resgatados em botes."Nos homens mais jovens, bateu o desespero - teve gente que se jogou na água e foi embora nadando. "Eles ficaram nervosos e tentaram quebrar os vidros. No meu vagão, teve um que chutou tanto que quebrou o pé", disse Carolina. Mães procuravam sinal nos aparelhos de celular para saber dos filhos.Quem conseguiu segurar a ansiedade e suportar o calor - o ar-condicionado não funcionava - saiu do trem por volta das 2 horas. Os bombeiros abriram as portas dos vagões, colocaram as pessoas em filas indianas e as levaram até a Estação Tamanduateí, numa caminhada de uns 10 minutos. A água havia começado a baixar por volta de meia-noite.Caroline seguiu da estação até Rio Grande da Serra e chegou em casa, em Santo André, por volta das 3 horas. "Nem dormi, vim trabalhar direto. Tinha que acordar às 5 horas para pegar o trem e chegar no trabalho às 8 horas." A doméstica Maria Felix Santana, de 49 anos, não foi trabalhar ontem. "Minha patroa ligou antes de eu avisar que não iria e falou para eu não ir. Fiquei com medo de acontecer de novo", afirmou. Além disso, havia o cansaço. "Cheguei em casa (em Ribeirão Pires) às 3 horas. Eu queria chegar cedo para fazer o jantar para minha filha, que estuda o dia inteiro. Quando cheguei, ela estava quase indo para o colégio", disse, bem-humorada.Maria acha que teve sorte - apesar do chá de banco e do calor, ficou quase todo o tempo sentada e tinha pãezinhos de queijo e água na bolsa. "Ofereci alguns, estava todo mundo com fome." A pior parte, segundo ela, foi o medo da reação dos homens. "Eles começaram a quebrar peças do trem, a saída de emergência. Se saísse briga, não teria para onde correr." Para piorar ainda mais a situação, Maria não sabe nadar.Segundo Caroline, quem estava na Estação Tamanduateí, de madrugada, e quis voltar para a Luz não teve como fazê-lo. "Muita gente dormiu lá. Em Santo André, por volta das 3 horas, tinha gente deitada na estação. Havia dois trens parados e muitos passageiros dormindo no trem."Centenas de pessoas também ficaram durante horas na Estação da Luz, sem saber como voltariam para casa. Três trens ficaram parados nas plataformas, enquanto os passageiros dormiam, espalhados pelos corredores da estação e também dentro dos vagões. "Quando chegamos, já havia pessoas aqui, e o número foi só aumentando. Teve gente que tentou voltar para casa de ônibus, não conseguiu, e voltou para cá", relatou a estagiária de Direito Claudiana Batista, de 35 anos.O gerente de Operações da CPTM, Francisco Pierrini, disse que foram registradas quatro paradas de trens em virtude de alagamentos nas pistas: dois próximos à Estação de Santo André, um na região de São Caetano e o do Tamanduateí. Segundo ele, esse último trem saiu do Brás, às 19h30, apesar da chuva, "porque não havia informação de que não era possível passar". Nos outros três casos, "as paralisações foram de dez minutos". No início da noite, havia 30 mil pessoas na Linha D. "Nunca tivemos um caso semelhante a este, em cem anos de CPTM."

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