Três gerações se encontram em mostra

Grafiteiros e artista plástico evocam interação arte-cidade

Susan Eiko Togashi, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

05 de setembro de 2009 | 00h00

A casinha colorida localizada na Rua João Moura, 997, em Pinheiros, foi, há um ano, palco de uma feroz invasão de 30 pichadores, que se organizaram para protestar contra a "comercialização, institucionalização e domesticação da cultura de rua". Em 5 minutos dentro da Galeria Choque Cultural, o bando danificou 20 obras - de artistas brasileiros como Presto e Espeto a estrangeiros como os britânicos Gerald Laing e John Simpson. No protesto, eles usaram a "arma" típica dos pichadores: o spray, totalizando um prejuízo calculado entre R$ 10 mil e R$ 15 mil.

A partir de hoje - até dia 30 -, a Choque Cultural junta três gerações de artistas - dois deles grafiteiros - em exposição. Com a mesma arma dos vândalos de um ano atrás, MZK e Nove se unem ao artista plástico Rubens Matuck para mostrar a interação entre as artes e o urbano.

Matuck, de 57 anos, apostou fundo nessa interação arte-cidade e usou pedaços de madeira de lei encontrados em caçambas de lixo espalhadas por São Paulo para transformá-los em telas e em suportes para aplicar a técnica de colagens de folhas de ouro e prata, trabalhadas com tinta a óleo e aquarela. "O Rubens nunca parou de experimentar. Passeando por suas obras é possível perceber a contemporaneidade de seus trabalhos", comenta Baixo Ribeiro, curador da exposição, que costuma apostar em encontros inusitados entre artistas de diferentes estilos para mostras em sua galeria.

O artista do meio, MZK, de 40 anos, carrega a cultura underground da vida noturna da cidade em seus trabalhos. Ele usa influências da surfe music e das batidas afro para compor o andar superior da galeria. Artista da época pré-internet, suas telas se aproximam dos flyers de baladas que costumava fazer para promover festas.

Nove, de 26 anos, caçula do trio e estreante na Choque Cultural, também se apropria do lixo urbano para compor pinturas em tampos de mesa de bar, janelas de madeira antigas e até uma grande tábua de carne. "Essa junção das três gerações em uma exposição só tem um ponto comum, que é fazer arte em um ambiente que não tem padrão", diz Nove.

Cada um com seu estilo e técnica, mas todos influenciados pelo caos urbano de São Paulo. Os preparativos para o lançamento de hoje começaram no último domingo e até a tarde de ontem o grafiteiro Chivtz fazia finalizações na nova fachada da Choque Cultural. "O encontro é supostamente incompatível, mas atinge nosso objetivo curatorial, que é causar choques culturais", completa Baixo.

TABU

O ataque do ano passado ficou para trás, mas ainda provoca debates no meio. Entre grafiteiros, principalmente, o assunto é considerado tabu. "Ninguém quer ver seus trabalhos como próximo alvo", afirma um grafiteiro. "Mas não existem ?certos? ou ?errados? nessa história."

O grupo que invadiu a Choque Cultural fazia parte do movimento "PiXação, Arte Ataque Protesto", liderado por Rafael Guedes Augustaitiz, o Rafael Pixobomb, estudante expulso do Centro Universitário Belas Artes por também organizar uma pichação em grupo ao prédio da faculdade. Ele distribuiu, pela internet, uma carta em que convocava para a invasão, pois a Choque Cultural "abriga artistas do underground, então é tudo nosso".

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