Três painéis e muita controvérsia

Obras modernas na Igrejinha de Brasília dividem católicos; Iphan defende arte e diz que encerrou discussão

Luciana Nunes Leal, O Estadao de S.Paulo

30 de junho de 2009 | 00h00

Uma representação moderna de Nossa Senhora de Fátima e dos três pequenos pastores que avistaram a santa na cidade portuguesa está tirando a paz da Igrejinha de Brasília, construída em 1958 e tombada como patrimônio histórico. Os fiéis se dividiram entre os que aprovam a arte abstrata da santa sem rosto e de colunas enfeitadas com pipas que representam as crianças - Lúcia, Francisco e Jacinta - e os que veem na obra um desrespeito à tradição católica. Polêmica à parte, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) diz que vai manter o trabalho do artista plástico Francisco Galeno.Nem a missa do domingo passado, quando o pároco Odolir Eugênio Dal Mago falou em tolerância e bom senso, amenizou o clima de confronto. Com a nova decoração concluída, os dois lados anunciaram uma batalha de abaixo-assinados, um pela retirada e outro pela manutenção dos três painéis, que têm desenhos de carretéis, lamparina, galhos de árvores e flores.Galeno, autor da obra e artista piauiense de 53 anos radicado há mais de 40 em Brasília, prevê que sua Nossa Senhora de Fátima ainda vai causar muita discussão, mas diz não acreditar na retirada dos painéis ou no fechamento da igreja. "Nós vivemos em Brasília, símbolo da modernidade, da civilidade. Além disso, a obra não tem agressividade nenhuma e nada de profano", defende.Projetada por Oscar Niemeyer, a pedido do casal Juscelino e Sarah Kubitschek, e enfeitada com azulejos de Athos Bulcão, a igreja não vive sua primeira polêmica. Nos anos 1960, o inconformismo dos fiéis levou à destruição da pintura interna, de Alfredo Volpi. No afresco, Nossa Senhora e o menino Jesus eram representados sem os contornos dos rostos.Há dois anos, quando o Iphan iniciou a restauração da Igrejinha - investimento de R$ 250 mil -, peritos constataram que a pintura de Volpi era irrecuperável. "A obra de Volpi não caiu por obra e graça do Espírito Santo. Foi um ato de vandalismo, foi destruída com ferramentas", diz o superintendente do Iphan-DF, Alfredo Gastal. Para ele, a briga em torno dos painéis de Francisco Galeno é assunto encerrado. "Não há chance de serem retirados", diz Gastal.A representação da fé em Nossa Senhora de Fátima - segundo a tradição católica, foram seis aparições, entre maio e outubro de 1917 - feita por Galeno repete características da Virgem Maria de Volpi pintada 50 anos antes, como as cores fortes e as bandeirinhas características da obra do artista ítalo-brasileiro. As reações contrárias aos painéis de Galeno foram vigorosas. Os fiéis organizaram uma missa, com faixas pretas na entrada. Antes disso, já haviam coberto a imagem da santa com pano branco.No início deste mês, o Ministério Público foi acionado e recomendou a suspensão dos trabalhos de Galeno. O Iphan atendeu à recomendação, mas autorizou a retomada da obra alguns dias depois. Na sexta-feira passada, o artista concluiu o ornamento. Em reação ao abaixo-assinado e aos protestos contra a decoração, os defensores de Galeno se reuniram no sábado e formaram o Movimento Cultural da Igrejinha. O abaixo-assinado do movimento tem mais de 500 assinaturas pela obra, contra cerca de duas mil anunciadas pelo grupo adversário.

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