Três suspeitos de chacina em Guaíra têm a prisão decretada

Na segunda, 15 pessoas foram mortas na cidade que faz fronteira com o Paraguai; motivo seria dívida de R$ 4 mil

da Redação,

23 de setembro de 2008 | 09h31

Três pessoas suspeitas de participar da chacina que deixou 15 mortos em Guaíra, no oeste do Paraná, tiveram a prisão decretada. A polícia conta com a ajuda das autoridades paraguaias para as buscas dos outros suspeitos, que continuam nesta terça-feira, 23. Uma disputa entre gangues de traficantes da região, provavelmente com ramificações no Paraguai, é apontada como o motivo da chacina. Além de cerca de 200 policiais espalhados pela região, houve pedido para que autoridades paraguaias ajudem na busca dos suspeitos, já que eles podem ter fugido para o país, cruzando o Lago de Itaipu.   Foto: Associated Press Quinze pessoas foram mortas e oito ficaram feridas na chacina em Guaíra, na fronteira com o Paraguai   Veja também:  Guaíra, um dos pontos estratégicos da droga   Em fevereiro, procuradoria pediu reforço da PF      O delegado-chefe da Polícia Federal de Guaíra, Érico Ricardo Saconato, afirmou que estão confirmadas as participações de três suspeitos no crime, identificados em depoimentos de alguns dos oito sobreviventes. De acordo com ele, está agendada uma reunião na tarde desta terça entre autoridades brasileiras e paraguaias, para acertar detalhes das buscas e apurar mais detalhes dos assassinatos. Está confirmada a participação do Secretário de Segurança Pública do Paraná, Luiz Fernando Delazari.   Segundo a polícia, a causa de um dos maiores massacres da história do Paraná foi uma dívida de R$ 4 mil e uma vingança pela morte recente de um integrante de uma das quadrilhas. Os levantamentos feitos pelos investigadores e o depoimento de sobreviventes apontam que os bandidos vieram do Paraguai, atravessando o Lago de Itaipu em um barco, mesmo meio de transporte utilizado para a fuga.   O comandante da 2ª Companhia da Polícia Militar de Marechal Cândido Rondon, capitão José Osmar Novach, considera que houve execução sumária. "A maioria foi atingida por tiros na cabeça e no rosto." Os criminosos, encapuzados, levaram os projéteis, mas no local a polícia ainda encontrou vestígios que permitiram identificar o uso de espingarda calibre 12, pistolas 9 milímetros e revólveres calibre 38. Os corpos estavam na sala da casa, na área, no quintal e sete deles num galpão onde era guardado milho. Até o início da noite de segunda, famílias ainda chegavam à propriedade para fazer o reconhecimento dos corpos.   Márcia Cristina Vanderlei Soares, de 42 anos, que mora numa chácara na Vila Santa Clara, a 3 km do centro de Guaíra, havia saído de casa para fazer serviços domésticos. Por volta das 17 horas, retornou ao sítio, onde morava com o marido Jossimar Marques Soares, de 41 anos, o Polaco, e o casal de filhos, Misael, de 16, e Fernanda, de 19. Logo na área da casa, ela já se deparou com a poça de sangue onde estava o corpo do marido. O desespero foi maior quando reconheceu os corpos dos filhos estirados no quintal da casa, ao lado de outras três vítimas. Até o papagaio da família foi morto e ficou esticado em cima da pia da cozinha.   A casa de alvenaria teve os móveis todos revirados, em uma clara indicação de que houve luta corporal ou os assassinos procuravam por alguém que pudesse se esconder atrás dos móveis ou sob as camas. O horror era ainda maior dentro do paiol, um rancho velho de madeira cercado por uma horta, criação de porcos e de galinhas. No interior, havia sete corpos executados com tiros na cabeça.   Guerra do tráfico   "É uma guerra do tráfico e não propriamente uma chacina", afirmou o secretário da Segurança Pública do Paraná, Luiz Fernando Delazari. Pelo menos 200 homens das Polícias Federal, Civil, Militar e Rodoviária Federal foram mobilizados para a captura dos assassinos, que provavelmente fugiram para o Paraguai. O secretário adiantou que, nesta terça, deve conversar com autoridades do país vizinho para pedir auxílio.   O delegado da PF em Guaíra, Érico Saconato, disse na segunda à noite que já pediu ajuda à polícia paraguaia para ajudar na captura. As testemunhas, que se fingiram de mortas para escapar da morte, relataram a abordagem. De acordo com Saconato, três homens provocaram as mortes na chácara na Vila Santa Clara, às margens do Lago de Itaipu, que tem servido como ponto de encontro para traficantes e contrabandistas que trazem mercadorias do Paraguai para o Brasil.   Os sobreviventes disseram que os homens chegaram perguntando quem iria pagar a dívida. "Mas eles estavam mesmo atrás de quatro pessoas, que foram justamente as últimas a chegar e morrer", disse o delegado da PF. Alguns dos mortos já tinham passagem pela Polícia Federal ou pela Polícia Civil da cidade, sob acusação de tráfico e contrabando. A polícia investiga a ligação dos feridos com a quadrilha. Entre os oito, cinco ainda estavam hospitalizados na noite de segunda.   Os matadores obrigaram Polaco a chamar sua quadrilha, um a um. Polaco, que já esteve preso por tráfico, seria o intermediário entre as quadrilhas e o dono da chácara. Conforme as pessoas iam chegando, eram dominadas em um galpão da chácara e depois mortas. Dois que tentaram fugir morreram nas imediações.   Buscas   Ainda de acordo com o secretário, os órgãos policiais já sabem quem é o chefe dessa quadrilha de assassinos, mas preferiram não revelar o nome, para não atrapalhar as buscas. No local do crime também foram encontrados três veículos com placas de Curitiba, Uberlândia (MG) e Osvaldo Cruz (SP). Um helicóptero e um avião do governo do Estado seguiram para a região de Guaíra para ajudar nas buscas e levar policiais dos grupos de elite. Segundo Delazari, as apreensões de drogas e, em conseqüência, o consumo têm aumentado muito.   Em 2007, foram apreendidos 1.057 quilos de cocaína, 1,2 milhão de pedras de crack e 104,8 mil quilos de maconha no Paraná. Até agosto deste ano, os volumes chegaram a 626 quilos de cocaína, 1,3 milhão de pedras de crack e 76,2 mil quilos de maconha. "O ambiente da droga é uma bala. Quem está nesse ambiente está sujeito a isso", acentuou o secretário, que destacou o trabalho conjunto na fronteira com a Polícia Federal. "Todos os dias morre gente aqui, em São Paulo, no Rio, no mundo." Ele admitiu, porém, que é incomum "15 mortos de uma vez, como agora".   No início da tarde de segunda, havia uma informação sobre duas crianças que estariam desaparecidas e poderiam ter sido mortas. Mas o secretário afirmou que as informações não procediam. Oito corpos foram levados para o Instituto Médico-Legal de Umuarama e outros sete, para Toledo, de onde devem ser liberados nesta terça.   (Com informações de Evandro Fadel e Osmar Nunes, da Gazeta do Povo, e da Agência Brasil.)   Texto alterado às 13h33 para acréscimo de informações.

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