Tripulação de jato diz que equipamento anticolisão não funcionou

Nos depoimentos dados entre as 20 horas de sábado e as 6 horas deste domingo, os tripulantes (piloto e co-piloto) e os passageiros do jato Legacy 600, que colidiu com o Boeing da Gol na sexta-feira, disseram, segundo relato da Polícia Civil de Mato Grosso, que sentiram o impacto, ouviram o barulho e nada viram. O piloto, Joe Lepore, e o co-piloto, Jan Palladino, revelaram que o jato, comprado dias antes, tem o equipamento anticolisão (dispositivo que identifica a aproximação de outra aeronave), mas por um motivo desconhecido o alarme não disparou. Conforme o relato dos dois, o Legacy decolou de São José dos Campos às 14h47. A colisão teria ocorrido por volta das 17 horas e 30 minutos depois, o jato fez o pouso de emergência na Serra do Cachimbo, no sul do Pará. A aeronave estava no piloto automático, como de praxe, e passou a ser conduzida manualmente após o impacto. Piloto e co-piloto informaram que estavam acordados, que a visibilidade era boa e que estavam recebendo normalmente as comunicações do comando do tráfego aéreo.A assessoria de imprensa da Polícia Civil informou que eles foram ouvidos na qualidade de vítimas. Um dos cinco passageiros é brasileiro: Daniel Robert Bachmann, funcionário da Embraer, da área comercial da empresa.Recém comprado pela empresa Excell Air Services, o Legacy partiu de São José dos Campos, em São Paulo, com destino aos Estados Unidos e escala prevista em Manaus. Conforme relato da tripulação do jato, as conseqüências da colisão com o Boeing se resumiram a um certo desequilíbrio na aeronave, logo controlado e a danos em duas peças: o aprofundador, localizado na cauda do avião e o winglet, situado na ponta da asa esquerda, e cuja função é auxiliar na estabilidade do avião.Os depoimentos foram feitos separadamente, no âmbito do inquérito que apura as causas do acidente que derrubou o Boeing 737-800 da Gol, com 149 passageiros e 6 tripulantes. O prazo para conclusão do inquérito é de 30 dias, mas pode ser dilatado. Pouso de "precaução"Segundo o delegado Anderson Garcia, que tomou os depoimentos do piloto e do co-piloto do jato, a decisão de pousar na Base Militar da Serra do Cachimbo foi uma "precaução" diante das avarias detectadas no avião, visíveis pela janela. "Foi um dano pequeno, segundo eles", explicou Garcia.Piloto e co-piloto também informaram que a rota que seguiam a 37 mil pés de altitude (aproximadamente 10 quilômetros) foi autorizada pela torre de controle de São José dos Campos e que não se desviaram dela. A Polícia do Mato Grosso vai requisitar o plano de vôo do Legacy, arquivado na torre de controle de São José dos Campos, vai analisar o conteúdo da caixa preta das duas aeronaves (na verdade são amarelas e trazem o registro de alterações ocorridas durante os vôos), e vai periciar a aeronave, que está retida na Base Militar da Serra do Cachimbo. Os resultados serão confrontados com os depoimentos. "Vamos checar. Se ficar comprovado que houve negligência, imprudência ou imperícia, piloto e co-piloto poderão ser enquadrados no crime de homicídio culposo", explicou Garcia, que também é chefe e inteligência da Polícia Civil do Mato Grosso.ColisãoOs tripulantes, segundo relato do delegado, informaram que não viram nada e que só perceberam o impacto. O jornalista a bordo da aeronave, Joe Schrkei, que trabalhava em uma matéria sobre a Embraer, relatou, segundo o delegado, que estava escutando uma reportagem dele, no momento do impacto. "Sentiu o impacto, olhou pela janela e viu que a aeronave tinha sido atingida", disse Garcia. Segundo relato do delegado, o jornalista americano teria dito, também, que logo se tranqüilizou, porque o avião se estabilizou.Os tripulantes e passageiros do Legacy deixaram a sede da Polícia Civil de Cuiabá por volta das 6 horas de deste domingo, e seguiram para o aeroporto. Liberado, o grupo pode retornar aos Estados Unidos, se desejarem. "Não há motivo para retê-los", explicou Garcia. Segundo o delegado, no caso de um eventual processo, piloto e co-piloto poderiam responder questinamentos por carta rogatória. Uma eventual sentença teria que ser homologada pela Suprema Corte americana e poderia até ser cumprida nos Estados Unidos. Os tripulantes e passageiros do Legacy estavam acompanhados de mais dez pessoas. Entre elas, o vice-cônsul norte-americano em Brasília, Mark Pannel, e uma equipe de funcionários da Embarer, entre eles assessores, um engenheiro e um advogado. Por orientação da embaixada americana, nenhum deles concedeu entrevista. Fotos e imagens também não foram permitidas.BuscaPor conta dos rumores de que o Legacy transportava somas em dinheiro, a Polícia Federal, a pedido do Ministério Público Federal no Mato Grosso, fez uma revista no avião que trouxe o grupo da base militar na Serra do Cachimbo até Cuiabá, mas nada foi encontrado. A vistoria foi realizada durante a madrugada, enquanto os depoimentos eram colhidos na sede da Polícia Civil, no centro de Cuiabá. Além do piloto, do co-piloto, do brasileiro e do jornalista, estavam a bordo do Legacy dois proprietários da Excel Air Service - Ralph Michielli e David Rimmer - e Henry Yanble, funcionário da Embraer ligado à área comercial. Resgate das vítimasPeritos do IML de Brasília embarcaram na manhã deste domingo para a Fazenda Jarinã, no norte de Mato Grosso, onde estão as equipes que trabalham no resgate das vítimas do acidente com o Boeing da Gol. Segundo informações da Globo News, seis peritos do Instituto Médico Legal de Brasília vão ajudar na identificação dos corpos. A Aeronáutica, que comanda a operação, reconhece que é remota a possibilidade de sobreviventes. Para apressar o transporte dos corpos, o Ministério da Saúde, segundo a Globonews, suspendeu algumas formalidades, como o uso de urnas lacradas e a emissão de atestados de óbito. Os corpos serão levados para o IML de Brasília, onde a identificação será finalizada.As autoridades informaram que usarão caminhões frigoríficos no transporte dos corpos. O trajeto de 280 quilômetros até a Base Aérea de Cachimbo deve ser difícil, em função do terreno, e demorar em torno de oito horas.O acidente envolvendo o Boeing da Gol é a maior tragédia da aviação brasileira, com 155 mortos, entre passageiros e tripulantes. O choque entre o jato Legacy e a aeronave ocorreu na divisa do Pará e o Mato Grosso, perto da Serra do Cachimbo.Matéria atualizada às 15h12

Agencia Estado,

01 de outubro de 2006 | 09h28

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