Tripulantes de navio maltês acusados de torturar clandestino são absolvidos

Homens também eram acusados de tentativa de homicídio contra o camaronês Wilfred Happy Ondobo

Julio Cesar Lima, Especial para o Estado

14 Novembro 2012 | 10h07

CURITIBA - Após 48 horas de julgamento no Tribunal do Júri do Fórum Estadual em Paranaguá (PR), presidido pelo juiz federal Vicente Ataíde, os cinco tripulantes (quatro turcos e um georgiano) do navio maltês Seref Kuru, acusados de tentativa de homicídio contra o clandestino camaronês Wilfred Happy Ondobo foram absolvidos por "ausência de materialidade" na noite de terça-feira, 13. Além disso, o marinheiro Orhan Satilmis, acusado de tortura e racismo, também foi inocentado.

Com a decisão, Satilmis, Ramazan Ozdamar, Zafer Yildirim e Ihsan Sonmezocak, (turcos) e Mamuka Kirkitadze, da Geórgia, receberam seus passaportes e devem partir do país nesta semana, após ficarem quatro meses sob liberdade vigiada. Já Ondobo deverá ser deportado tão logo a Embaixada de Camarões faça os procedimentos burocráticos.

Segundo o advogado de defesa Giordano Vilarinho Reinert, a decisão foi a mais justa para os marinheiros e suas famílias. "Tinha a certeza da inocência deles e também ocorreram várias versões para o caso. No final tudo foi esclarecido", disse.

Desde que foi resgatado pelo navio chileno Marina R, Ondobo chegou a contar quatro versões diferentes sobre a forma como caiu no mar. Em um momento contou que foi jogado pelos tripulantes, depois disse que era um pescador à deriva, posteriormente alegou que teria descido por uma corda e, por último, conforme depoimento no tribunal, disse que havia descido por uma corda.

Com relação à tortura, Giordano alegou que Ondobo não apresentava sinais de violência quando foi resgatado. A tese foi aceita por representantes do Ministério Público, além dos jurados. Além disso, Ondobo alegou não lembrar dos termos racistas com os quais foi xingado.

Contra Ondobo pesou o fato de esta ter sido a sexta vez em que ele é flagrado como clandestino. Ele já foi retirado de navios na Argentina, Holanda, Colômbia e mais três países africanos.

A hipótese de que ele teria sido arremessado em alto mar também foi contestada. "Há um laudo da Capitania dos Portos que indica que o local onde ele foi encontrado é considerado como área de navegação costeira, ou seja, bem mais próximo da costa do que a distância que ele alegou ter sido jogado", afirmou.

O caso teve início no final de junho, quando Ondobo denunciou à Polícia Federal que havia sido jogado em alto mar (15 quilômetros da costa) pela tripulação do navio, que lhe deu 150 euros e um tablado de madeira com boias para flutuar. Os 19 tripulantes foram colocados sob liberdade vigiada e, no início de agosto, 13 foram liberados.

Contra eles pesavam as acusações de tortura, racismo e tentativa de homicídio.

Ondobo embarcou no dia 16 de junho no Porto de Douala, em Camarões. Ele afirmava que, após o oitavo dia, quando acabou sua comida e água, saiu do esconderijo e passou a sofrer diversos tipos de violência.

Entrevistado pela reportagem, Ondobo mostrou-se arredio e irritado ao ser questionado sobre seu passado de clandestino profissional. "Não falo sobre isso", se limitou a dizer.

Mais conteúdo sobre:
camarõesclandestino

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.