Tristeza e perplexidade marcam a vida noturna em Santa Maria após tragédia em boate

Poucas pessoas frequentam bares; 'A gente só vem aqui porque chorar em casa é deprimente'

Elder Ogliari,

02 Fevereiro 2013 | 18h26

SANTA MARIA - Na festiva cidade de Santa Maria, sempre alegrada pela presença dos estudantes, há casas noturnas fechadas por decreto da prefeitura e pouca gente nos bares. Ninguém se anima a chamar grandes grupos para conversar, comemorar ou mesmo ver jogos de futebol. Quem sai quer apenas desopilar e trocar a perplexidade pela tragédia da boate Kiss com interlocutores eventuais. Pelo menos foi assim durante as noites da primeira semana depois do incêndio.

"A gente só vem aqui porque chorar em casa é deprimente", comentava, em uma noite dessas, o comerciário Ronaldo Lippol, 52 anos, autor de dois livros sobre a boemia local, sentando a uma mesa do Ponto de Cinema, diante do agente fiscal Valmor Simonetti, 62 anos. "Eu nunca tinha visto um clima tão triste, as ruas vazias, as pessoas fitando o vazio", complementou, lamentando, também ele, a morte de uma pessoa íntima, o filho de um amigo que viu nascer. "Essa tragédia marcará a cidade por um século; Santa Maria nunca mais vai ser a mesma", previu. "Eu vim aqui hoje para tentar desopilar um pouco", admitia Simonetti.

No mesmo bar, a funcionária pública Mariza Salazar, 58 anos, sentada sozinha a uma mesa, observava "uma frequência muito baixa" na casa que costuma frequentar assiduamente. "É um impacto fortíssimo e não sei quanto tempo levaremos para ver a alegria de volta", comentou.

Dona do ponto, Lourdes Da Cas Cortez, 48 anos, suspendeu a música ao vivo durante a semana e viu o público, que chegava a formar filas na calçada, passar o ocupar apenas alguns dos 50 lugares da casa. "O movimento caiu 70% e não sei quando vamos recuperá-lo", avalia, revelando que a reforma prevista para as férias coletivas de fevereiro, que já estavam programadas, será suspensa porque o fluxo de caixa não é mais seguro como era.

Outro bar tradicional, o Pingo de Fome, viu o movimento cair em proporções semelhantes aos do Ponto de Cinema. "O público está mais receoso, a cidade está parada", observa o proprietário Selvino Peripolli. A casa, muito frequentada por estudantes, também é prejudicada pela suspensão do funcionamento das boates, pela prefeitura. "Como ficamos abertos até às 6 horas, o pessoal vinha para cá depois da balada", destaca Peripolli. "Agora, com público escasso, estamos fechando por volta da uma hora".

Na lancheria Big Lucão, também localizada no centro da cidade, o gerente Jonatas Gonçalves da Silva percebeu redução de 50% no movimento da semana. "Todos têm algum conhecido entre as vítimas da tragédia", diz, revelando que ele também perdeu três amigos. "A gente não ouve mais risadas altas, as pessoas estão de luto mesmo", constata.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.