Troca de comando na Defesa deixa Anac 'na berlinda'

Especialista do setor aéreo afirma que empresas aéreas sempre têm quem as defenda na Agência

Christiane Samarco, do Estadão,

26 Julho 2007 | 02h09

Um especialista do setor aéreo que acompanha cada passo da Anac desde a sua criação não tem dúvidas de que, com a troca de comando no Ministério da Defesa, "a Agência, que já nasceu torta, entrou na berlinda". Ele conta que, antes mesmo de a Anac sair do papel, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), Leur Lomanto já estava escolhido como seu primeiro diretor, com a bênção do Planalto, do PMDB, do então PFL hoje Democratas, e do lobby das companhias aéreas. Até a Força Aérea acatou a escolha.   Veja também: Anac só tem um diretor do setor aéreo Jobim confirma que vai mudar comando da Infraero Jobim diz que problema na Defesa é de comando   "A Anac só não foi criada no governo tucano porque o Planalto considerou o relatório do deputado Lomanto muito favorável às empresas e, por isto, decidiu engavetar o projeto da Agência", lembra o especialista. A idéia de substituir o antigo Departamento de Aviação Civil (DAC) por uma estrutura mais moderna e eficiente só vingou no governo do PT, mas a avaliação geral é de que prevaleceu o "espírito" favorável às companhias aéreas. A questão técnica foi relegada a tal ponto que o comando do DAC não foi procurado pela nova diretoria da Agência para fazer a transição.   "As empresas, seja a pequena BRA ou as poderosas TAM e Gol, que detêm 90% do mercado, têm quem as defenda todo o tempo na Anac; o governo, nem sempre, e os usuários não são prioridade de ninguém", resume o especialista. Segundo ele, o governo é majoritário no colegiado de cinco diretores, mas nem o Planalto tem tantos representantes a seu favor quanto às companhias.   A intimidade entre diretores da Agência e as empresas aéreas é tanta que acabou irritando o presidente Lula no final do ano, por ocasião do chamado "apagão da TAM", quando cinco aeronaves da companhia saíram simultaneamente da escala de vôos para uma revisão mecânica. Encarregado de preparar um relatório sobre o episódio que reinstalou o caos em aeroportos depois da crise dos controladores, o diretor Josef Barat precisou de apenas uma semana para isentar a TAM de responsabilidade no caso.   Um interlocutor presidencial diz que o Planalto considerou o relatório "pífio e inaceitável". Diante da indignação do presidente Lula, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, chamou o presidente da Anac, Milton Zuanazzi, e cobrou um resultado mais eficiente. Dezenas de páginas e dois meses depois, veio o segundo e definitivo relatório. Mas nada mudou para a TAM, mais uma vez inocentada.

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