''''Tropa de Elite'''' denuncia crueldade de batalhão

Filme que faz retrato chocante do Bope tem primeira exibição oficial

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2020 | 00h00

Depois do derrame de cópias piratas, que circulam pelo Rio há semanas, o filme Tropa de Elite teve ontem a primeira exibição oficial. O longa, do diretor José Padilha, desvenda bastidores do Bope, Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar. É uma crônica pessimista da violência no Rio, movida pelo tráfico de drogas e pela corrupção da polícia. Ninguém é poupado. O filme mostra histórias de corrupção da PM em todos os escalões e de violência do Bope, descrito como a tropa incorruptível, mas que tortura moradores e extermina traficantes. Nem as organizações não-governamentais, que fazem trabalho social nas comunidades, escapam. ''''ONG só entra em favela se o dono do morro (traficante) deixar'''', ensina Nascimento, capitão do Bope, interpretado por Wagner Moura. Ele tem tanta raiva dos policiais corruptos quanto dos filhos da elite, consumidores de drogas, que fazem passeatas pedindo paz. ''''Quando vejo estas manifestações sinto vontade de dar muita porrada'''', diz, numa cena. Na história de Padilha, inocente mesmo só o morador da favela, que apanha do Bope e sofre na mão dos traficantes. O filme não apresenta solução. Está longe de ser um alento para o carioca. Padilha diz que não tomou partido. Mas, em alguns momentos, o longa passa a impressão que esses policiais honestos, porém truculentos ao extremo, são ''''heróis'''' na guerra urbana. ''''Numa escala de valores, prefiro a corrupção à tortura. Eu abomino a tortura. Acho que o filme na verdade é contra o Bope.'''' Um dos roteiristas é Rodrigo Pimentel, ex-Bope, autor do livro Elite da Tropa, escrito com o antropólogo Luiz Eduardo Soares e com o ex-PM André Batista. ''''A polícia não foi criada para prender nem para matar'''', diz. ''''Foi criada para dar segurança. Quando essa lógica se inverte, todo mundo perde.'''' As cenas de tortura são chocantes. Numa delas, policiais espancam um adolescente, que não é bandido, para que ele denuncie onde está o chefe do tráfico. A sessão inclui até uma ameaça de empalamento. A prática mais comum de tortura, além de muito soco, pontapé e tapa na cara, é sufocar a vítima com saco plástico. Os atores sentiram na pele a dureza do treinamento do Bope, em três semanas de trabalho com Paulo Storani, ex-integrante do batalhão. ''''Levei muito tapa na cara'''', conta Caio Junqueira, o PM Neto, submetido ao treinamento com Moura e André Ramiro. Além dos tapas, os atores faziam exercícios exaustivos, sofriam castigos e comiam uma gororoba jogada no chão - como no Bope. A ponto de Moura ter reagido e quebrado o nariz de Storani com um soco. A história se passa em 1997. Nascimento precisa achar um sucessor para deixar o Bope e mudar de vida ao lado da mulher, grávida do primeiro filho. Sua escolha fica entre dois aspirantes da PM, Neto e André Matias (Ramiro), que, além de policial, estuda numa faculdade da zona sul. Os colegas, ricos, trabalham numa ONG no Morro dos Prazeres, Santa Teresa, e cheiram cocaína com o chefe do tráfico. ''''Cada grupo tem diferentes interesses: traficante, polícia, Bope, consumidor de drogas. É do encontro deles que nasce a violência no Rio'''', diz Padilha. Fica difícil sonhar com um final feliz.

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