Tropas do Brasil já fazem patrulhas a pé no Haiti

Militares contam não ter sofrido um só disparo em favela que sediou combates.

Bruno Garcez, BBC

07 Setembro 2007 | 12h10

Há dois meses, as tropas do Brasil, que comandam a Minustah (Missão de Estabilização da ONU no Haiti, na sigla em francês), passaram a fazer patrulhas a pé ou a bordo de veículos leves na favela haitiana de Cité Soleil, que já foi descrita pela ONU como um dos lugares mais perigosos do mundo. O local, na capital do Haiti, Porto Príncipe, abriga cerca de 250 mil moradores e foi palco de alguns dos mais violentos combates travados pelos militares brasileiros, desde o início da missão de paz no país caribenho, em 2004. O centro de emergências mantido pela ONG Médicos Sem Fronteira (MSF) em Cité Soleil atendeu em janeiro de 2006 um total de 106 vítimas de ferimentos com armas de fogo. Em março deste ano, no entanto, o hospital não registrou um único caso de pessoas feridas à bala. Até o início deste ano, as incursões a Cité Soleil eram feitas em carros blindados. Mas os militares contam não ter sofrido um único disparo nas incursões por favelas haitianas nos últimos meses e afirmam também que somente um homicídio foi registrado nesse período. Segundo a ONG de direitos humanos haitiana Reseau National de Defense des Droits Humains, um total de 1.821 civis foram mortos no Haiti no período que vai desde a chega das tropas da Minustah, em 2004, até 2006. A BBC Brasil acompanhou uma dessas patrulhas a Cité Soleil. A despeito do suposto aumento na segurança local, as tropas brasileiras sugerem que jornalistas que queiram visitar a favela usem coletes à prova de balas e capacetes, cedidos pelos militares, e não se desgarrem do grupo de soldados que os acompanham. Mas o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que visitou Porto Príncipe nesta semana, esteve em Cité Soleil na segunda-feira e não recorreu aos dispositivos de segurança recomendados pelos militares. Cité Soleil é cheia de vielas estreitas, que são percorridas por grupos de soldados durante as patrulhas, realizadas em turnos diurnos e noturnos, ao longo das 24 horas do dia. O local conta com diversas casas destroçadas e as marcas de tiro ainda são visíveis em diversas residências. Até recentemente, Cité Soleil era aterrorizada por gangues de criminosos, que controlavam a região. Os soldados brasileiros contam ter preso a maior parte das lideranças das gangues, mas um dos líderes de uma das mais poderosas facções criminosas de Cité Soleil, Amaral Duclona, ainda está foragido. De acordo com os militares, muitos dos ex-integrantes das gangues ainda vivem normalmente na favela, apenas ocultaram as suas armas. Alguns, contam militares, trocaram as armas de fogo por facões e usam-nos para intimidar moradores e dominar bolsões de Cité Soleil. Nas três ocasiões em que a reportagem foi a Cité Soleil na companhia das tropas do Brasil, a reação foi a mesma. Os moradores receberam os soldados com sorrisos e, muitas vezes, saudações em português, ensinadas pelos brasileiros. O carinho demonstrado para com os brasileiros não se estende a todos. Em uma das visitas, um morador fez queixas sobre a polícia haitiana, dizendo que os policiais tentaram prendê-lo injustamente. A polícia haitiana conta com escasso treinamento e, segundo a ONG haitiana Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos, há diversas denúncias de execuções sumárias, tráfico de drogas e seqüestros contra a polícia do país. Mesmo alguns dos soldados brasileiros relatam que os policiais do Haiti pecam pelo excesso de força contra os habitantes das regiões mais pobres. Um oficial brasileiro afirmou que quando as tropas do Brasil e os policiais do Haiti fazem missões conjuntas os haitianos se sentem intimidados em recorrer a práticas abusivas contra moradores de favelas. Militares também relatam que mesmo alguns soldados das forças de paz da Minustah cometem ações abusivas. É o caso de forças jordanianas, que, durante o período de combates mais intensos contra gangues criminosas, responderam a tiros com rajadas de metralhadoras que atravessaram várias casas, colocando em risco a vida de inocentes. Pelas regras de engajamento da ONU, os soldados da Minustah podem disparar contra qualquer um que aponta uma arma contra eles ou atirar na direção de alguém que julgam estar ameaçando outro morador. Aqueles que são detidos pelos militares são levados para chefaturas de polícia de Porto Príncipe. O ministro Nelson Jobim quer utilizar a experiência do Exército brasileiro em favelas de Porto Príncipe, como Cité Soleil e Belair, em ações similares no combate ao crime em favelas como as do Rio de Janeiro. Mas, para que isso ocorra, ele já disse que seria necessário discutir reformas das leis brasileiras.   BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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