Trotes atormentam o Corpo de Bombeiros no Rio

Dois helicópteros, três lanchas, 10 carros e 50 bombeiros foram mobilizados para o salvamento de dezenas de pessoas jogadas ao mar, após o choque entre duas barcas da travessia Rio-Niterói, na Baía de Guanabara, hoje de manhã. Só que o acidente era um trote. Quando as equipes de socorro chegaram ao trecho da Baía de Guanabara em que trafegam as barcas, encontraram apenas o mar calmo e o céu claro. O Corpo de Bombeiros está entre as instituições que mais recebem trotes no Rio de Janeiro. Das 20 mil comunicações de emergências mensais, 2 mil são falsas."Isso é uma brincadeira de mau gosto, e não pode continuar", afirmou o comandante do Grupamento Marítimo, coronel Marcos Aurélio Silva, que recebeu o trote. "Na hora do perigo ninguém pensa em checar as informações, mas em socorrer as vítimas o mais rápido possível". Marcos Silva conseguiu rastrear o telefone de quem fez a "brincadeira", e vai pedir à polícia para apurar o caso.O trote de hoje custou pelo menos R$ 2 mil aos contribuintes - esse é o valor gasto para retirar os helicópteros de sua base. O coronel não contabilizou o custo do combustível dos carros, das lanchas, nem o risco de haver uma emergência real e o grupamento estar desguarnecido. Foi o segundo alarme falso de grandes proporções a que os bombeiros responderam em menos de 24 horas. Na manhã de ontem, o trote falava de uma explosão no 12º andar de um prédio na Franklin Roosevelt. Dessa vez, foram mobilizados 20 homens e quatro carros.De acordo com o subsecretário de Defesa Civil, coronel Jorge Lopes, o número de trotes para os Bombeiros tem caído. Já correspondeu a 20% das chamadas de emergência, hoje não passa de 10%. Ele acredita que os novos equipamentos de rastreamento de ligações e identificador de chamadas tenham inibido a ação dos "brincalhões". "Uma vez seguramos a ligação de um brincalhão e o pegamos ainda falando no telefone. Ele levou um belo susto", conta Lopes.O coronel diz que a comunicação falsa de emergência não é crime previsto no Código Penal. "O comunicante pode agir com boa intenção. Nos fins de semana, quando os prédios do Centro são dedetizados, é comum recebermos chamadas de pessoas que acreditam que a fumacinha que sai das janelas é um princípio de incêndio", diz. "Nem sempre onde há fumaça há fogo".A administradora da Rodovia Presidente Dutra, a concessionária Nova Dutra, apelou para campanhas de conscientização dos moradores ao longo da rodovia. No primeiro semestre do ano passado, 31% das 512 chamadas de emergência eram trotes. No mesmo período desse ano, esse índice foi reduzido para 23%. Mesmo assim, os operadores usam "truques" para se certificar de que a comunicação de acidente é verdadeira: eles perguntam dados específicos como as placas dos carros e o quilômetro exato em que o acidente ocorreu.Já o Disque-Denúncia praticamente não sofre esse tipo de problema. Os índices de trotes são reduzidos - 9,5% das 300 chamadas mensais. "Optamos por ter uma linha comum, e não um 0800, justamente para que a pessoa só telefone se quiser denunciar. Poucos querem pagar para passar trote", disse o coordenador do serviço, Isaías da Cruz Costa. A Polícia Militar não divulgou os dados sobre trotes.

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