Tumulto suspende audiência para discutir políticas contra estupro no Piauí

Comissão da Câmara dos Deputados foi ao Estado, mas teve de mudar local de reunião após manifestação na Assembleia

O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2016 | 22h34

TERESINA - Uma audiência pública com a Comissão Externa de Combate ao Estupro, da Câmara Federal, no plenário da Assembleia Legislativa do Piauí, foi inviabilizada por manifestantes contra Temer e a favor da presidente afastada Dilma Rousseff (PT). A audiência foi privada, na sala da presidência da Alepi, depois que as deputadas federais Soraya Santos (PMDB/RJ) e Iracema Portella (PP/PI) foram hostilizadas pelas manifestantes. Elas foram chamadas de golpistas, fascistas e machistas, porque teriam votado a favor do impeachment de Dilma.

Um grupo de mulheres portando cartazes como Fora Globo, Fora Temer, Golpistas não passarão invadiram as galerias do plenário protestando contra a comissão. “Há três anos eles estiveram aqui, apresentamos um relatório e até agora nunca houve uma respostas. Querem apenas usar o caso da violência contra a mulher e o Estado do Piauí como trampolim político”, reclamou Maria Lúcia Oliveira, da União das Mulheres Piauienses.

Josefa Francisca Lima, outra manifestante, do Movimento Luta por Moradia e da Frente Brasil Popular, gritava contra a comissão, que ainda tinha os deputados Celso Jacob (PMDB/RJ) e Silas Freire (PR/PI), que foi o propositor da discussão. “São petistas com cargos comissionado no Estado que estão protestando”, adiantou Silas.

A representante do Coletivo de Juristas do Piauí em Defesa de Democracia, Ana Lucia Gonçalves, disse que o ato era para denunciar que a audiência pública excluiu os movimentos sociais, que trabalham em defesa das mulheres, além dos órgãos municipais  e estaduais que trabalham com políticas públicas voltadas para as mulheres. 

"Estamos denunciado a deputada Soraya que votou a favor do estupro contra a democracia. O impeachment foi uma violência com a presidente Dilma, que foi legitimamente eleita. Essa audiência é uma farsa", disse Ana Lúcia.

Com os gritos focados a Soraya Santos e Iracema Portella, elas propuseram transferir o local da audiência. "Vamos levar a contribuição do Piauí para Brasília, mesmo que tenhamos que nos reunir em outro local", disse Soraya. Já estressada com o protesto, Iracema reagiu aos gritos de Fora Iracema!: “Não saio, meu mandato é legítimo”, disse a deputada.  

Com isso, a audiência aconteceu a portas fechadas na sala da presidente da Assembleia Legislativa. Os manifestantes, com direito a um grupo que defendia a candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC/RJ), que travou discussão com as manifestantes pró-Dilma, esperaram a comissão nos corredores da Alepi.

 

Estupro. A representante da União de Mulheres Piauienses (UMP), Maria Lucia Oliveira, reclamou que no ano passado foram registrados mais de 500 casos de estupros e abusos contra mulheres. “Isso é o oficial, porque muitas mulheres não procuraram a policia por medo ou vergonha. Por puro constrangimento”, frisou Maria Lúcia. Segundo dados da Secretaria de Segurança, foram 539 casos de estupros em 2015.

"Que os deputados não usem o Estado como palanque, e que deem resposta para essa violência, e ao relatório que foi feito há três anos", complementou a manifestante. 

No relatório é apontado que cerca de 70% das mulheres vitimas de estupro tem entre 5 e 19 anos. “Os números de violência sexual contra as mulheres estão crescendo assustadoramente”, disse a representante da UMP.

Em 2014 foram registrados 662 casos no Piauí, sendo que 347 desses casos envolvem jovens entre 10 e 19 anos. A presidente da comissão externa de combate ao estupro, a  deputada federal Soraya Santos (PMDB-RJ), falou dos motivos de criação da comissão e os seus objetivos que foram ampliados, após as várias ocorrências de estupro no país. “Uma mulher ser tratada como um objeto é um absurdo”, frisou.

A Comissão Externa da Câmara foi  criada para acompanhar as investigações de estupros, e estava em Teresina para conhecer as políticas públicas de combate à violência contra a mulher e saber sobre o andamento das investigações dos quatro casos de estupro coletivo ocorridos no estado.

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