Turistas invadem bailes funk no Rio

Cartaz em hotéis da zona sul propõe ?divertir-se como os nativos?

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

05 Outubro 2008 | 00h00

Pouco depois da meia-noite de domingo, após peregrinação por hotéis e albergues da zona sul carioca, seis vans entram na Favela do Rio das Pedras e estacionam na porta da casa de shows Castelo das Pedras, em Jacarepaguá. Com seis guias, dois seguranças e pulseiras de identificação, cerca de 60 turistas estrangeiros, com idade entre 20 e 30 anos, descem ávidos. Eles esperam passar uma noite "se divertindo como os nativos", conforme se diz nos hotéis. "Vivo numa região com muitos brasileiros. Todos recomendaram ir a baile funk para conhecer a realidade do País. Achei que procurar agência especializada era o modo mais seguro", afirma a americana Anna Bittencourt, de 24 anos. Ela integra o grupo de turistas guiado pela Be a Local, empresa especializada em passeios turísticos além dos cartões-postais. O objetivo é fazer o turista experimentar por algumas horas a sensação de viver como nativo, seja andando por vielas da Favela da Rocinha, torcendo no Maracanã ou rebolando na "Favela Party". Mas não encontrarão armas, drogas nem violência, como é comum nos 120 bailes semanais das favelas do Rio. O do Rio das Pedras foi escolhido a dedo por oferecer menos risco. A festa ocorre numa favela dominada por milícia - grupo paramilitar formado por policiais e bombeiros que repele o tráfico e explora serviços como gás e TV a cabo pirata. Ciente de que as regras das milícias não caminham ao lado da lei, mas tentando saciar a curiosidade das amigas australianas Rachel e Laura, o único brasileiro do grupo, o paulista Thiago Rorsi, de 30 anos, também optou pela agência, que a R$ 60 por pessoa leva turistas a três camarotes reservados no Castelo das Pedras. "Eu me sinto inseguro, mas foi o melhor diante das circunstâncias." A idéia de levar turistas ao funk na favela nasceu por acaso. "Eu tinha um albergue e conheci Rio das Pedras. Uma noite, resolvi convidar três hóspedes para o baile. Eles adoraram e continuei levando outros turistas. Com o tempo, vi que era necessário alugar um camarote e ter pessoal de apoio para acompanhar clientes", conta um dos sócios da Be a Local, Mário Taborda. Ele apostou no chamado "turismo alternativo", fechou o albergue e abriu a empresa especializada em passeios, cujo lema é "Don?t be a gringo!". Guias pedem que os turistas não tentem comprar drogas nem se envolvam em brigas. A adrenalina prometida não decepciona, segundo a alemã Birgit Hass, de 25 anos, que rebolava no camarote com a dinamarquesa Natalia Piatek, de 26. "Amei o Rio. Fui à Rocinha e comprei CD do Mister Catra", diz, referindo-se ao MC famoso por letras de teor pornográfico. Não fossem os cabelos louros e a pele rosada de suor e cerveja a R$ 1, 50, os turistas passariam despercebidos. Seus figurinos são idênticos aos dos freqüentadores brasileiros de classe média: reveladoras calças de cintura baixa, microssaias e blusas decotadas para meninas; jeans e camisetas para rapazes. Na pista de dança, turistas que optaram por ir ao baile sem guias parecem desapontados. "Onde estão os fuzis AK-47?", pergunta, irônica, a irlandesa Kerrie Galvin, de 26 anos. "Você tem cocaína?", pergunta um rapaz de sotaque britânico, sem saber que tráfico é punido com surras e mortes em áreas de milícia. O baile avança pela madrugada e a multidão de quase 2 mil pessoas parece incansável. Algumas brasileiras já entraram no camarote e percorreram em minutos a distância entre o flerte e os beijos com os turistas. Não há sexo, mas casais brotam nos cantos escuros. Às 2h30, algumas turistas são chamadas ao palco para dançar e não decepcionam. A aventura chega ao fim às 4 horas. E opiniões se dividem. "Esperava uma coisa mais New Orleans. Isso é parecido com hip hop dos Estados Unidos", resmunga Anna. "Acho que isso é a real cultura do Brasil", crava o australiano Marco Van Whitton.

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