Turma da Mônica vai entrar na luta contra as drogas

Personagens de Mauricio de Sousa tratarão do problema em 3,8 milhões de gibis que o governo federal quer distribuir em 2012

Bruno Paes Manso, de O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2011 | 08h15

Os amigos Tina, Rolo e Pipa, da Turma da Tina, conhecidos de crianças e jovens brasileiros pelos quadrinhos da Mauricio de Sousa Produções, precisam apresentar um trabalho na escola. No dia da tarefa, Diego, o responsável pela apresentação, falta. A professora comenta que o garoto andava estranho. Tina e Rolo, preocupados, saem de moto para encontrá-lo depois da aula. Encontram Diego doidão, sentado sozinho em um banco de praça. Ele havia trocado a blusa com a qual todos o reconheciam por pedras de crack. É o começo da primeira história da Turma da Tina a abordar diretamente o problema das drogas entre jovens.

 

Nos próximos seis meses, parte dos 20 roteiristas da Mauricio de Sousa Produções vai manter contato com quatro técnicos do governo federal para criar histórias usando o carisma da Turma da Mônica e discutir o tema das drogas. O projeto é da antiga Secretaria Nacional Antidrogas, que na gestão Dilma Rousseff foi rebatizada como Secretaria Nacional de Política sobre Drogas.

 

Serão feitas quatro revistas - duas da Turma da Tina e duas da Turma da Mônica Jovem. O Estado teve acesso aos esboços dos roteiros. O material será entregue ao governo em dezembro para ser lançado no ano que vem, com tiragem de 3,8 milhões de exemplares. As da Turma da Tina, voltadas a adolescentes, vão tratar principalmente de drogas ilícitas, como maconha, cocaína e crack. E também abordarão as legais, como ansiolíticos (calmantes), anfetaminas (inibidores de apetites) e solventes.

 

Já a Turma da Mônica Jovem, para crianças acima de 8 anos, com Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão e companhia já adolescentes, vai tentar dar um tratamento mais suave ao assunto, discutindo álcool e cigarros. A diretriz foi dada pelo próprio Mauricio de Sousa. “A ideia é discutir a questão como se estivéssemos na mesa de jantar com nossos filhos”, explica.

 

Mauricio avalia que crianças e jovens de hoje têm acesso a uma infinidade de informações vindas de fontes variadas, como internet e televisão. “O objetivo é ajudar que eles fiquem não apenas informados, mas bem informados. Para isso, é preciso ajudá-los a refletir sobre as informações que acessam, papel que cabe a pais, professores, ONGs e governo. Vamos ajudar a cumprir esse papel por meio das histórias em quadrinho.”

 

Ditadura. A ideia de usar a Turma da Mônica para discutir assuntos polêmicos, como drogas, é um projeto antigo, que o cartunista já havia tentado tirar do papel no fim dos anos 1970. Mas acabou repreendido pelo governo militar, que censurou a ideia. Na visão dos governantes da época, tratar do tema em revistas infantis poderia despertar a curiosidade dos jovens. “O tema não deve ser ignorado. Vamos tratar do assunto com responsabilidade”, diz Maurício. “É uma guerra desigual contra o vício. Estamos com estilingues e eles, de bazuca.”

 

O processo de criação e execução ocorre ao longo de todo o semestre, principalmente por causa das idas e vindas dos roteiros, que precisam ser ao mesmo tempo envolventes, com histórias interessantes, sem deixar de levar em consideração algumas mensagens que a secretaria acha importante passar. “Colocamos na história o pessoal em um barzinho. Quando vai para os técnicos do governo, eles apontam a necessidade de colocar o aviso de que é proibido vender bebida alcoólica para menores de 18 anos. Também pediram para colocarmos água e alimentos junto à bebida, detalhes para os quais a gente não está atento”, explica Rodrigo de Medeiros Paiva, gerente editorial da Maurício de Sousa Produções.

 

Apoio. Na história a que o Estado teve acesso, depois que Tina e Rolo descobrem os problemas de Diego com o crack, eles procuram os pais do garoto. “A questão do uso de drogas afeta a todos e deve ser tratada em conjunto”, concluem. É quando passam a ser listadas algumas das receitas dos técnicos do governo para enfrentar o problema: “apoio dos amigos para que ele não abandone os estudos”, “manter o dependente sempre ocupado física e mentalmente” e “se preciso, procurar a rede pública de saúde, grupos de jovens, grupos religiosos e apoio da comunidade”.

 

Na parte final, Diego agradece o apoio dos amigos e diz que decidiu tratar-se em uma clínica de reabilitação. Ele explica que a decisão foi dele e voltará para a escola quando “ficar legal”. Tina apresenta o trabalho para a professora, a partir da experiência que ela e o grupo viveram no apoio que deram a Diego. No fim, colegas de classe vão à clínica contar ao garoto que tiraram a nota máxima e passam a tarde com ele.

 

A orientação do governo era para que a história reforçasse o apoio da família. Mas o fim já teve de ser revisto. “Optamos por mudar, porque ninguém é feliz ao ser internado. A internação é apenas uma etapa na vida do dependente. Vamos fazer o final com ele voltando bem para a escola e para o cotidiano com família e amigos”, diz Paiva.

 

Largo do Arouche. Há três meses, quando Mauricio deixava um evento na Academia Paulista de Letras com Rodrigo Paiva, em um começo de noite, ele foi abordado por um adolescente no Largo do Arouche, no centro. Paiva conta que eles ficaram assustados com a insistência do jovem em receber algo. Pensaram que seriam assaltados e perguntaram se poderiam dar a ele gibis da Turma da Mônica. O jovem saiu contente com a oferta.

 

Paiva narrou o episódio para defender a abrangência social das historinhas que criam. Recentemente, estiveram em uma feira literária em Morro Reuters, no Rio Grande do Sul. “Vieram muitas crianças, descendentes de alemães, algumas não falavam ainda português direito e eram fãs da Turma da Mônica.” Independentemente da classe para a qual se dirige, a ideia é reforçar a importância do apoio de amigos e da família e evitar o isolamento do dependente.

 

Apesar de interessado pelo assunto, Mauricio evita cravar opiniões certeiras. Ele já passou de carro pela cracolândia, na região central de São Paulo, para ver o drama mais de perto. Achou o ambiente parecido com cenários em preto e branco de filmes noir. Sobre soluções, Mauricio diz que ainda busca estudar para saber mais sobre o assunto. Afirma, por exemplo, que não tem posição formada sobre o modelo usado no Rio de internação compulsória, que retira crianças e jovens das ruas mesmo contra a vontade deles, mas vê a solução com ceticismo. “Quando o dependente quer mudar e sua dignidade é respeitada, o tratamento é mais eficiente. Tenho medo de que levar alguém pelo braço, contra a vontade, possa servir apenas para criar mais monstros.”

 

O cartunista diz ter ficado mais incomodado com a nova legislação sobre medidas cautelares, que permite pagamento de fiança por quem comete crimes com pena de 1 a 4 anos de prisão, como furto. “A pessoa que está furtando pode ser a mesma que contribui para fortalecer o tráfico. A gente tem de levar mais a sério os efeitos da impunidade.”

 

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