Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

TV acusa Igreja Universal do Reino de Deus de fazer adoção ilegal

Suposto esquema existiu de 1990 a 2001, segundo emissora portuguesa; Ministério Público do país vai investigar denúncias

Jamil Chade, correspondente na Suíça, e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2017 | 19h40
Atualizado 11 de dezembro de 2017 | 22h07

GENEBRA E SÃO PAULO - Uma rede de televisão portuguesa está denunciando a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), em uma série de reportagens que começou a ser divulgada nesta segunda-feira, 11, por supostamente montar um esquema de adoção ilegal de crianças que teria funcionado dos anos 1990 a 2001. Segundo a TVI, por meio de um lar que abrigava crianças vindas de famílias desfavorecidas, eram realizadas adoções com informações forjadas pelos funcionários da entidade e até sem aval judicial. A maioria das vítimas era levada para fora do país europeu, sendo trazidas também para o Brasil. 

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A Procuradoria-Geral da República de Portugal confirmou ao Estado que há “um inquérito relacionado com essa matéria, tendo o mesmo sido remetido ao Diap (Departamento de Investigação e Ação Penal) de Lisboa para investigação”. A Igreja nega ter cometido ilegalidades e diz que a reportagem promove “campanha difamatória”.

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A primeira reportagem da série intitulada “Segredo dos Deuses” exibe 24 minutos de depoimento de uma mãe que relata ter sido vítima do esquema. Nos anos 1990, segundo conta, foi denunciada por deixar os três filhos sozinhos em casa enquanto trabalhava e os viu ser levados para um lar administrado pela igreja. “Eu só precisava de uma creche para que pudesse ir trabalhar em segurança. Mas eles disseram que eu iria vê-los aos fins de semana e depois, paulatinamente, iria retomar o contato”, diz, chorando, enquanto vê pela primeira vez fotografias de jovens que seriam os seus filhos. 

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Esses jovens, diz a reportagem, teriam sido adotados posteriormente de forma ilegal pela filha do bispo Edir Macedo, líder da Iurd. Ao longo do meses, as mães teriam sido afastadas e desvinculadas de seus filhos. Algumas dessas mães chegaram a ir aos tribunais para reaver as crianças, mas não obtiveram sucesso nos pedidos. 

“Essas mães literalmente foram roubadas no que diz respeito aos seus filhos, de quem não sabiam há mais de 20 anos”, explicou a repórter Alexandra Borges, que conduziu a apuração. “Esta investigação só foi possível ser conhecida 20 anos depois. Agora, algumas pessoas saíram da igreja, começaram a ver com distanciamento e guardaram até documentação original daquela altura. É uma história muito grave”, acrescentou.

Para dar base às investigações, a reportagem ouviu o ex-bispo da Universal Alfredo Paulo Filho, que ratifica o conteúdo levantado, acrescentando que, após instituir uma política de proibição de filhos a pastores e bispos, Edir Macedo teria passado a incentivar e, em um segundo momento, a exigir adoção de crianças por membros da Iurd.

A apuração durou sete meses, com pesquisas em mais de 10 mil documentos. No total, segundo a emissora, foram mapeados dez casos de adoção ilegal - que serão mostrados ao longo da série. De acordo com a TV, a Universal chegou a Portugal em 1989, tendo se instalado em uma garagem de Lisboa. A igreja cresceu rapidamente e conquistou fiéis ao redor do país. 

 

É uma ‘campanha de difamação’, afirma Iurd

Em nota, a Universal disse que a reportagem faz “campanha difamatória, mentirosa e que não se pode tolerar”. A igreja ataca o ex-bispo Alfredo Paulo Filho, citado na matéria, a quem atribuiu “condutas impróprias” como motivo para sua saída em 2013. A igreja diz que acionará judicialmente a televisão e afirma que as crianças foram encaminhadas pela Segurança Social e pela Santa Casa de Misericórdia de Lisboa ao citado lar.

O Estado não conseguiu contatar Alfredo Filho. A Igreja Universal não comentou a acusação contra a filha de Edir Macedo. 

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