Twitter acirra intrigas políticas

Foi no microblog que indiscrição de Jefferson sobre vice de Serra deflagrou crise com DEM

Lucas de Abreu Maia, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2010 | 00h00

O Twitter assumiu papel de protagonista nestas eleições antes mesmo de a campanha começar. Mas não da forma que os candidatos esperavam. Inicialmente pensado como um palanque para conquistar o eleitor jovem, o microblog transformou-se em espaço para intrigas políticas, comentários pessoais, cutucões virtuais e bate-boca online - ou, como preferiu definir o presidente do PT, José Eduardo Dutra, "bate-dedos".

Hoje, são muitos os políticos com perfil no site. Vão de deputados e senadores aos candidatos à Presidência, passando por lideranças partidárias. E o que surgiu como ferramenta de campanha transformou-se em hábito. "Já há algum tempo tento ser mais jovem e faço esforço para participar dessas redes", conta o presidente do PPS, Roberto Freire (@freire_roberto, 3.475 seguidores), um dos mais ativos no Twitter. "Às vezes eu tenho de tomar um certo cuidado para não virar a noite, porque você fica lendo e perde a noção."

Freire já atuou em algumas das polêmicas do Twitter. Durante a semana, chegou a ter uma breve discussão com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo (@paulo_bernardo, 5.847 seguidores), sobre o crescimento econômico do País. "Mas o Paulo Bernardo é um petista democrático, é bom discutir com ele", minimiza Freire, acrescentando que já teve de bloquear alguns usuários "com quem não há a menor condição de interagir".

Indiscrição. A escolha do vice de José Serra (PSDB) foi a primeira crise com raízes no Twitter nas eleições deste ano. Seu estopim foi um tweet - texto de no máximo 140 caracteres -, postado no perfil do presidente do PTB, Roberto Jefferson (@blogdojefferson, 3.804 seguidores). "Falei agora com o Sergio Guerra. O vice será o Alvaro Dias", tuitou, antes que a notícia chegasse aos aliados do DEM. "Esqueci que sou político, agi como tuiteiro", explica Jefferson, que garante: "Eu não cometo excessos."

O anúncio antecipado gerou reações imediatas dentro e fora da rede. Líderes do PSDB e do DEM correram ao microblog a para comentar - uns para defender a escolha, outros para criticá-la. Quando os tucanos retrocederam e apontaram o deputado fluminense Índio da Costa (@depindiodacosta, 39.153 seguidores), mais uma vez foi no Twitter que a notícia chegou primeiro.

Jefferson conta que entrou "firme" no Twitter "há uns 30 dias". "Achei uma coisa excelente, você dá uma tuitada e já fica esperando as reações. É como se fosse uma pesquisa de tracking", comenta, empolgado. Ele é um dos políticos mais ativos na rede, com uma média de 14 tweets por dia. "Se você fizer um comentário ruim, se entrar errado, na mesma hora vai ver as reações", diz.

Petistas também já provaram o lado amargo do microblog. Em abril, o tuiteiro Marcelo Branco (@marcelobranco, 6.225 seguidores) - responsável na campanha de Dilma Rousseff (PT) pela mobilização de internautas - causou desconforto ao criticar a Rede Globo em sua página.

Dutra (@zedutra13, 3.334 seguidores) protagonizou uma troca de farpas via Twitter com o jornalista Ricardo Noblat. Ao se afastar da discussão, Dutra tuitou: "Caraca, esse negocio vicia mesmo. Estava no circo, sem bateria, e quase em crise de abstinência."

Notívagos. O horário de maior atividade dos políticos tuiteiros é à noite, depois das 21 horas. Já se tornou tradição, às vésperas da divulgação de nova pesquisa eleitoral, políticos passarem madrugadas estimando os resultados. Com a velocidade típica da rede, com frequência notícias falsas ganham destaque. "Aquilo tem uma velocidade muito grande, é uma Babel", opina Freire.

Por vezes, os comentários políticos dão lugar a recomendações musicais, detalhes da rotina ou - em tempos de Copa do Mundo - análises futebolísticas. "Acho que está constatado que existe um certo voyeurismo tuítico", avalia Alfredo Sirkis (@alfredosirkis, 1.561 seguidores), vice-presidente do PV e um dos coordenadores da campanha de Marina Silva. "As pessoas se interessam por aspectos da rotina e pela vida pessoal das figuras públicas. Mas sou da velha escola, não misturo público com privado." No entanto, opina: quem fala da própria vida no microblog ganha seguidores. "Isso, aliás, faz muito sucesso."

Os três principais candidatos à Presidência também têm perfil na rede. José Serra (@joseserra_, 275.712 seguidores) é o mais participativo. Notívago confesso, ele costuma escrever nas madrugadas, quando envia vários tweets em sequência. Serra se mostra familiarizado com a linguagem típica do microblog e usa abreviaturas como "rs" (risos). Fala de música e futebol, mas principalmente comenta sua agenda de campanha. Ele já prometeu que continuará a escrever no site, se for eleito.

Dilma Rousseff (@dilmabr, 99.479 seguidores) é a candidata que menos escreve e restringe seus tweets aos compromissos de campanha. Marina Silva (@silva_marina, 81.506 seguidores) é a presidenciável que usa o Twitter há mais tempo. Ela evita falar da vida pessoal, mas nos jogos do Brasil na Copa foi uma das tuiteiras mais assíduas, comentando os jogos em tempo real.

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