Última ''Baratinha'' se aposenta

Destino do Fuscão dirigido desde 1988 pelo investigador Arnaldo Barbério pode ser o Museu da Polícia

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

10 de maio de 2009 | 00h00

O casamento durou tanto que, em Taubaté, cidade do interior paulista, ninguém acredita que eles não serão mais vistos juntos. Tantas turbulências enfrentadas em parceria, glórias incontáveis acumuladas na relação de 32 anos. A sintonia entre os dois ninguém nega, mas o investigador de polícia Arnaldo Barbério, de 57 anos, 34 deles na polícia, vai mesmo deixar sua "Baratinha". A aposentadoria chegou para ele e parece que só de desgosto o Fuscão 1977 - último em forma de viatura policial na ativa - também decidiu pendurar as chuteiras. "A separação é muito triste", resume Barbério, já disparando mil elogios para sua companheira de mais de três décadas: "Nunca me deixou na mão, está um brinco que engana a idade, é pau para toda obra, tem um pique que só vendo." E por aí seguiu, sem respirar, convencendo qualquer ouvinte que seu Fusca viatura, muito mais do que uma Ferrari, merece consideração de gente mesmo. Babette Barbério, essa sim casada no papel com o investigador de polícia há 33 anos, até já se acostumou a dividir o amor - e a atenção - de Barbério com a Baratinha.Dois personagens - João e José - representam bem os extremos das aventuras trilhadas por eles.João era na verdade João Acácio Pereira da Costa, mais conhecido como o Bandido da Luz Vermelha. Um dia, sem data exata na memória de Barbério, ele andou nessa Baratinha. O criminoso, que atuava sempre com um lenço para cobrir o rosto e carregava uma lanterna com bocal vermelho, precisava ser levado ao fórum do interior e o Fuscão era a única viatura disponível. Acácio ficou preso 30 anos e virou tema de filme. De José, o outro personagem marcante na história da Baratinha , ninguém sabe o destino. Já faz uns 20 anos, a Baratinha foi acionada para socorrer uma mulher que "estava a ponto de parir" o seu quinto filho, e nada de a ambulância chegar àquela casa pobre do centro de Taubaté. A Baratinha - "não disse que é pau para toda obra?", pergunta o investigador, interrompendo a história - chegou ao local em meio aos gritos dos vizinhos. A grávida foi colocada no carro, mas não deu tempo para entrar no antigo pronto-socorro municipal da cidade. O menino, "forte, de uns 3 quilos", nasceu na porta do hospital, dentro da Baratinha mesmo, com ajuda de dois enfermeiros. "A mãe batizou o menino com nome composto. O primeiro foi José, em homenagem ao meu parceiro da época. O segundo Arnaldo, por minha causa", lembra. Depois de cinco anos que Arnaldo Barbério não parava de visitar José Arnaldo, a família do moleque voltou para o Nordeste sem deixar rastros nem pista sobre se nascer de forma inusitada dentro da Baratinha daria sorte ou azar. "Essa só de contar eu me emociono", revela o investigador.INÍCIOQuando Barbério conheceu a Baratinha, lá no fim dos anos 70, não foi logo de cara dirigindo o veículo. No início, o investigador andava no banco do passageiro. Quem conduzia a Baratinha era o Estopim, identidade assumida por Geraldo Alberto da Silva, motorista da polícia que se aposentou em 1988, cedendo a direção ao investigador. Depois de seu pai, Augusto Barbério, é Estopim quem aparece como responsável pela carreira de Barbério na polícia - agora perto do fim.Barbério pretende se aposentar da academia e advogar, já que tem diploma de Direito. A Baratinha, provavelmente, irá para o Museu da Polícia na capital paulista, que já abriga outras duas viaturas do tipo, "aposentadas" - em 2006 e 2008. Faltam informações oficiais, mas o que circula entre os agentes de farda é que a "Baratinha do Arnaldo" é de fato a última em operação, "já que não se sabe de outra". MAIOR LANCEMas, para que ela nunca deixe de ser chamada assim - "Baratinha do Arnaldo" -, o investigador torce para que, em vez do museu, o Fuscão tenha outro destino. "A segunda hipótese é leiloar a viatura", revela Arnaldo. "Se for mesmo a leilão, eu espero dar o lance mais alto." ONDE ESTÃO AS OUTRASMuseu: Se o destino da "Baratinha do Arnaldo" for mesmo o Museu da Polícia, lá ela encontrará ?duas irmãs?, que também já trabalharam com investigadores ou delegados Aposentadoria: Uma delas ficou nas ruas até o final do ano passado, quando ?pediu aposentadoria? na Delegacia de Cartas e Precatórios, no 78.º Distrito Policial (Jardins) na capital. A outra Baratinha foi utilizada até 2005. Seu último?emprego? havia sido numa delegacia de São Bernardo do Campo, no ABC paulistaEndereço: O Museu da Polícia funciona de terça a sexta-feira, das 13 às 17 horas, na Praça Reinaldo Porchat (entrada pelo Portão 1 da Cidade Universitária)

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