Rafael Spuldar
Rafael Spuldar

Um ano após tragédia, mais de 200 continuam desaparecidos na serra do Rio

Moradores dizem que ossos humanos são encontrados semanalmente em Teresópolis

Rafael Spuldar, BBC Brasil

12 Janeiro 2012 | 09h40

Ainda restam 215 pessoas desaparecidas desde as fortes chuvas que causaram enchentes e desabamentos em diversos municípios da região serrana do Rio de Janeiro há exatamente um ano, deixando mais de 900 mortos confirmados.

Atualizados no início de janeiro, os números do Programa de Identificação de Vítimas (PIV) indicam que 137 pessoas ainda estão desaparecidas no município de Teresópolis, enquanto Nova Friburgo tem 44, Petrópolis 18 e Sumidouro uma; outros 15 desaparecidos não tiveram a localidade informada.

O Programa de Identificação de Vítimas faz parte de outro mais amplo, o Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (Plid), mantido em parceria entre o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) e a Polícia Civil, e que conta com a colaboração de outros órgãos públicos, como a Defesa Civil, o Detran e o Corpo de Bombeiros.

A ação do programa consiste em identificar as pessoas cujo desaparecimento foi comunicado por parentes. Segundo o coordenador do Plid, o promotor de Justiça Pedro Borges, foram feitas 698 comunicações relacionadas à tragédia na serra fluminense. No caso de Teresópolis, onde comunidades inteiras foram dizimadas pela enxurrada de lama e pedras, acredita-se que vários corpos ainda estejam soterrados pelos escombros. Moradores afirmam que ossos humanos são encontrados semanalmente por funcionários que trabalham em obras de reparação.

Técnicas de identificação. A identificação das vítimas é feita basicamente por meio de três técnicas: a papiloscopia (recolhimento de impressões digitais), exames de arcada dentária e verificação de DNA.

O coordenador do Plid afirma que, para a identificação por meio de digitais, a maior dificuldade é a decomposição dos corpos e os danos causados a eles pelos desmoronamentos.

Já o exame de arcada dentária é dificultado, segundo ele, pelo fato de muitas vítimas serem de baixa renda e não terem prontuário odontológico registrado em dentistas.

Para a identificação por DNA, segundo Borges, a maior dificuldade decorre do deterioramento dos restos mortais encontrados sob a lama e os escombros, que gera a contaminação das amostras, prejudicando a análise.

Além disso, de acordo com o promotor, a dificuldade em fazer a identificação por DNA é maior de acordo com o grau de parentesco da pessoa que busca com a vítima encontrada. Se a relação for direta, como de mãe e filho, o trabalho é mais rápido do que se o restos mortais forem de um familiar mais distante.

Segundo o coordenador do Plid, 110 mortos cujo desaparecimento foi comunicado por parentes foram identificados por meio de exame papiloscópico. Já o exame de arcada dentária permitiu a identificação de apenas duas vítimas, enquanto 35 foram identificadas por meio de material genético.

Até janeiro deste ano, 342 pessoas cujo desaparecimento foi comunicado foram encontradas com vida em seis municípios da serra fluminense.

Esperança. Àqueles que desejam pelo menos encontrar os restos de seus familiares, a fim de realizar um sepultamento, o promotor pede que mantenham as esperanças.

"A Operação Serra (nome dado aos esforços para identificação das vítimas das enchentes de 2011) só será encerrada quando zerarmos o número de comunicações de desaparecidos", diz.

Borges diz que, mesmo um ano após a tragédia, muitas pessoas ainda são localizadas com vida, por vários motivos. Um deles é o fato de que o reaparecimento de diversos moradores dados como desaparecidos - que somente estavam incomunicáveis durante as chuvas - acabou não sendo relatado às autoridades.

"Já nessa semana houve o caso de uma pessoa que deixou sua família no período exato da tragédia. Assim, o que parecia um desaparecimento devido à chuva tratava-se tão somente de um abandono de lar", afirma o promotor.

"Ou seja, este é um universo variado. Nada pode ser presumido, tudo tem de ser esgotado."

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