Um ano depois, morte do prefeito de Campinas ainda provoca dúvidas

Uma série de homenagens, protestos e dúvidas sobre a conclusão do inquérito marcam amanhã o primeiro aniversário da morte do prefeito de Campinas, Antonio da Costa Santos. Toninho do PT, como era conhecido, foi assassinado com um tiro na Avenida Mackenzie, depois de sair de um shopping, quando voltava para a casa, pouco depois das 22 horas. A polícia de Campinas iniciou as investigações sobre o caso e prendeu quatro suspeitos em outubro, soltos um mês depois por faltas de provas. Em janeiro deste ano, a Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo assumiu o inquérito e concluiu que Toninho havia sido morto pela quadrilha do seqüestrador Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho, porque teria atrapalhado a fuga do bando depois de um seqüestro frustrado. A Justiça acatou a denúncia contra Andinho por co-autoria do homicídio. Outros três acusados morreram em confrontos com policiais. Na semana passada, Andinho prestou seu primeiro depoimento sobre o caso, em Presidentes Bernardes, onde está preso depois de ser capturado em fevereiro, e negou ter participado do assassinato.MotivaçãoPara a prefeita Izalene Tiene (PT) e a viúva Roseana Garcia a polícia não tem nenhuma prova conclusiva sobre o assassinato. "Falta a motivação, falta a autoria", afirmou a prefeita. "O inquérito foi concluído sem a arma do crime, sem motivação, sem confissão e sem reconstituição", completou Roseana.A prefeitura e a viúva nomearam, em junho, um novo advogado criminalista, Márcio Thomaz Bastos, para representar a família e a prefeitura no caso. A expectativa de ambas é que o criminalista encontre brechas no inquérito que permitam o pedido de reabertura do processo.O advogado que antecedeu Bastos, Ralph Tórtima Stettinger, deixou o caso justamente por entender que não havia como contestar as conclusões do DHPP. Bastos foi procurado hoje, mas não retornou as ligações da reportagem. Segundo Roseana, ele demorou para ter acesso ao inquérito, de três mil páginas, e está analisando as investigações.?Acaso?Roseana lamentou que as conclusões da polícia sobre a morte do prefeito. "Por acaso os bandidos passaram por ele na avenida, por acaso atiraram, por acaso dois deles foram mortos em Caraguatatuba, por acaso foram mortos pela polícia de Campinas. Isso parece mais ficção científica que investigação policial", alegou. Segundo ela, não houve reconstituição porque "essa tese é muito difícil de ser reconstituída".A viúva desabafou que o assassinato do prefeito "foi uma contribuição póstuma para expor as vísceras de Campinas, porque tem relação com o crime organizado". O promotor público criminal Fernando Viana, de Campinas, que acompanhou o caso, refutou a teoria de Roseana. "Temos convicção do que aconteceu pela provas materiais colhidas", afirmou.O promotor confirmou que a motivação do crime ainda é desconhecida, mas garantiu que há provas indicando a autoria. Viana explicou que não é possível reabrir o inquérito já concluído, mas abrir novas investigações ou autos complementares ao processo. "As investigações nunca foram encerradas, o Ministério Público vai apurar qualquer denúncia que for feita. Mas nenhum fato novo surgiu", disse.De acordo com Viana, o processo segue em frente com a apresentação das testemunhas de acusação, de defesa, os pronunciamentos e o julgamento. Ele disse que há elementos para que Andinho seja submetido a um júri popular, em Campinas. Mas comentou que as datas ainda não estão marcadas, nem mesmo para a audiência da acusação.GovernoA prefeita Izalene Tiene (PT) avaliou seu primeiro ano de gestão como um período de "grandes desafios". Ela afirmou que está dando continuidade ao projeto de Toninho e do partido, definidos no programa de governo. Citou a dívida de R$ 1,5 bilhão da cidade, levantada no início da administração do PT, e lembrou que a cidade não podia receber financiamentos do Estado nem do governo federal porque não tinha a certidão negativa de débito junto à Previdência."Foi um período de organização administrativa", alegou Izalene. Ela negou que houvesse se indisposto com antigos colaboradores de Toninho, comentário que ganhou força depois da demissão de sete secretários nomeados pelo prefeito. "As mudanças foram necessárias para melhor adaptação da proposta de execução do programa de governo do PT, meu e de Toninho", argumentou.Segundo a prefeita, as questões partidárias e as divergências não atrapalham. "Têm que ser saudáveis. Ajuda o fato de o partido ser forte e organizado", defendeu. Ela disse que seu desafio para os próximos dois anos é criar alternativas para a inserção de 100 mil desempregados da cidade no mercado de trabalho e promover projetos de integração junto às polícias estaduais para melhorar a segurança pública.ProgramaçãoA programação de homenagens no aniversário de um ano da morte de Toninho tem início amanhã às 9 horas, com atividades e oficinas em frente à Catedral Metropolitana, no Centro, sob o tema Contra a Impunidade. Às 16 horas, está prevista uma sessão solene na Câmara Municipal e às 18 horas, um ato ecumênico em frente à Catedral.Quarta-feira, ao meio-dia, haverá o descerramento de uma placa em homenagem ao prefeito em frente à prefeitura, no Paço Municipal. Às 14 horas, será aberto o Painel Permanente de Fotos homenageando Toninho, no Hospital Municipal Mário Gatti. Na quarta-feira, o início do funcionamento da Corregedoria da Polícia Civil na cidade foi incluído na programação de homenagens ao prefeito.Às 19 horas de quarta, será relançado o livro Campinas, das Origens ao Futuro, de autoria do prefeito, na FNAC do Shopping Parque Dom Pedro, com a participação de Jorge Coli, Cândido Mendes e Ricardo Antunes. A publicação é da Editora Unicamp.

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