Um ano depois, MP vê lacunas no caso Daniel

Um ano depois do assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel, as investigações continuam abertas. Para a polícia, os sete autores estão presos e o caso encerrado. Mas para o Ministério Público Estadual (MPE), não. Promotores continuam tentando saber se existem mais envolvidos no crime - mandantes e executores - e, principalmente, outros motivos. As apurações encerradas pela polícia com a identificação e prisão dos acusados foram reabertas em agosto, a pedido do médico João Francisco Daniel, irmão do prefeito. "Eu entrei no velório do Celso Daniel e até hoje não saí", diz o promotor de Justiça de Santo André José Reinaldo Carneiro, que divide o trabalho de investigação com outros três colegas. O promotor explicou ao Estado que o segredo de Justiça decretado no caso o impede de fazer qualquer comentário sobre suspeitas ou eventuais novas provas encontradas. "O que posso afirmar é que existem lacunas expressivas. Queremos apenas encontrar respostas para essas dúvidas. Também garanto que estamos nos desdobrando." Para atender os pedidos da família e para que "não houvesse nenhuma dúvida" sobre o caso, o procurador-geral de Justiça, Luiz Antonio Guimarães Marrey, criou uma força-tarefa para trabalhar em conjunto com os policiais do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Esses policiais são os mesmos que excluíram qualquer ligação da morte com uma possível "queima de arquivo" ou irregularidades relacionadas à prefeitura de Santo André - o assassinato levou o MPE a deparar-se com um suposto esquema de cobrança de propina e contratos irregulares. "Até agora não conseguiram provar nada e não vão encontrar nada", garante o atual prefeito, João Avamileno (PT). Quanto ao crime em si, Avamileno diz que considera o caso "esclarecido", mas faz a ressalva: "Sabemos que muita gente, do próprio partido, ainda tem dúvidas e desconfianças." O relatório final da polícia afirmou que o prefeito foi morto por criminosos comuns. Eles seqüestraram Daniel em 18 de janeiro, depois que o prefeito jantara no Paraíso, zona sul, com o amigo Sérgio Gomes da Silva, o Sombra. Levada a um cativeiro na Favela Pantanal, divisa com Diadema, a vítima teve a sentença de morte decretada quando o bando descobriu sua identidade, pelo noticiário de rádio e TV. Na madrugada de domingo, dia 20, Daniel foi morto a tiros numa estrada de terra de Juquitiba, Grande São Paulo. Os promotores de Santo André e de Itapecerica da Serra - Carneiro, Amaro Thomé Filho, Roberto Wider Filho e Salmo Mohmari -, interrogaram os bandidos, que confessaram o crime em diversas ocasiões. Fizeram o mesmo no DHPP e no Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic). Ao delegado Edson Santi, do Deic, os acusados repetiram que pretendiam seqüestrar um empresário da Ceagesp. Como não o encontraram, escolheram a Pajero de Sombra. "Nós apuramos que não houve nada além de um seqüestro para extorquir dinheiro, por bandidos comuns acostumados a esse tipo de crime", repetiu Santi.IrmãosMas os irmãos de Celso Daniel, João Francisco, que é médico, e Bruno, relacionaram uma série de dúvidas sobre a motivação da morte do prefeito - eles acreditam em crime político. Também pediram a apresentação de novas testemunhas, que teriam presenciado o seqüestro ou até o assassinato. Procurado pelo Estado, João Francisco não foi localizado. Numa das linhas paralelas de apuração, a polícia investigou a morte do ladrão Dionísio Aquino Severo, morto no Centro de Detenção Provisória (CDP), do Belém. Severo fugira espetacularmente, dias antes do seqüestro, da Penitenciária de Guarulhos de helicóptero e, ao ser recapturado, teria comentado que sabia sobre a morte do prefeito. A apuração concluiu, porém, que Severo foi morto a mando de chefes da facção Primeiro Comando da Capital (PCC). Não havia nada que ligasse sua execução a Daniel. Dos 14 membros da quadrilha detidos ou procurados durante a investigação, só 7 foram acusados do crime. Com exceção de L.S.N., que tinha 17 anos e confessou ter atirado no prefeito, todos estão sujeitos a pena mínima de 25 anos. Se tivessem praticado "queima de arquivo", a pena mínima cairia para 12 anos. Os denunciados pelo MPE são Ivan Rodrigues da Silva, o Monstro, Itamar Messias dos Santos, Marcos Roberto Brito dos Santos, o Marquinho, Elcyd Oliveira Brito, o John, José Edson da Silva e Rodolfo Rodrigues dos Santos Oliveira, o Bozinho. L.S.N. receberá pena de 3 anos. Como participou das recentes rebeliões no Complexo de Franco da Rocha da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), foi transferido na quinta-feira, provavelmente para a Penitenciária de Iaras.

Agencia Estado,

19 de janeiro de 2003 | 10h12

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