Arquivo pessoal
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Um brasileiro entre os separatistas pró-russos

Depois de preso em SP na Copa, ex-PM luta na Ucrânia

Entrevista com

Rafael Marques Lusvarghi

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

01 de setembro de 2014 | 03h00

Vladimir Putin oferece uma alternativa ao mundo e o Leste da Ucrânia será parte da Rússia. Os comentários são do brasileiro Rafael Marques Lusvarghi, ativista que ficou 45 dias preso em São Paulo acusado de atos violentos durante a Copa do Mundo e que hoje luta na Ucrânia ao lado de rebeldes pró-Rússia. Rafael já foi soldado da Polícia Militar em São Paulo e, por sua "experiência", comanda um dos grupos armados separatista, o Batalhão Prizrak.

O ativista foi preso em um protesto contra a Copa em junho, ao lado do manifestante Fábio Hideki Harano. Mas, depois de pouco mais de um mês, ambos foram soltos e a Justiça admitiu que os objetos que portavam no protesto no dia 23 de junho não eram explosivo, como havia denunciado a Polícia Civil.

Rafael decidiu viajar para a Ucrânia e lutar pela separação do Leste. Da região em Luganks, ele falou ao Estado. Eis os principais trechos da entrevista:

Porque você decidiu lutar na Ucrânia?

Sou um guerreiro. Um guerreiro com convicções políticas e morais. Essas convicções me fazem apoiar a Nova Rússia e como sou um guerreiro essa é a melhor maneira que tenho de contribuir. Quer dizer, eu devo ter uma dezena de habilidades militares de elite que aprendi na Legião, a responsabilidade me obriga a lutar do lado correto.

O que esta em jogo nessa parte do mundo?

O que está em jogo é um mundo multipolar. Faz tempo que o imperialismo quer uma base da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) aqui, pra poder conter a Rússia e manter sua hegemonia global. Nesse sentido, aqui se luta uma batalha internacional, de todos os povos do mundo. Pensando menor, está em jogo o direito de um povo de decidir o próprio destino. Essa região é russa, foi criada como Nova Rússia, só foi atribuída a Ucrânia Soviética lá por volta de 1920 e sempre teve uma tendência a se separar, sempre foi "diferente" da Ucrânia. Aqui sempre foi terra dos grão-russos, a Ucrânia era dos "pequenos russos". A questão da separação voltou porque colocaram alguns de seus direitos fundamentais em jogo.

Como é a vida diária como combatente no Leste da Ucrânia?

Alvorada por volta das 5h da manha, café da manhã, conferir a tropa e repassar aos superiores, treinamento, instrução, pausa para o almoço, atividades diversas, como patrulhamento, reunião com o comando, responsabilidades como comandante de grupo. Depois da janta, temos atividades extras como guarda, patrulha, servir como tradutor. Tenho essas responsabilidade de comando de grupo por causa da minha experiência anterior. A artilharia ucraniana bombardeia as redondezas umas três vezes por dia e eventualmente os grupos de reconhecimento avançado dos dois lados se cumprimentam com alguns tiros.

Para um brasileiro, quais são as maiores dificuldades ?

É difícil falar quando se é um brasileiro que fala russo e francês, além de já estar acostumado com climas estranhos e ter uma larga experiência militar.

Qual tua avaliação sobre a Europa e sobre Putin?

Não sou cientista político, mas acho que a Europa passa uma crise geral, fora a crise econômica, uma crise de identidade, muito se deve a essa coisa do pós-guerra de ser quintal da Otan. Pelo menos eles mantém a posição relativamente confortável de centro do sistema econômico mundial, mesmo que os trabalhadores paguem as crises. Já Putin as vezes fornece alternativas na ordem mundial, o que é importante.

Kiev acusa Putin de estar fornecendo armas e dinheiro aos separatistas. Como isso tem sido feito?

A única ajuda que Moscou enviou foi ajuda humanitária, com os comboios que foram verificados por autoridades internacionais e foram para a população de Donbass e não para nós, os militares. 


Você pretende voltar ao Brasil?

Por enquanto não. Vim aqui já pensando em ficar mesmo com o fim do conflito.

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