Um 'Café com a presidenta?'

Com a eleição de Dilma, forma correta de descrever cargo no feminino divide estudiosos

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2010 | 00h00

Tudo certo, nada resolvido. Essa é a grande conclusão sobre a dúvida que se abateu domingo à noite sobre o País - se ele será governado, a partir de janeiro, por uma presidente ou uma presidenta. Está tudo certo porque as duas formas são gramaticalmente corretas. Mas não está nada resolvido porque os preciosistas continuam perguntando qual das duas convém usar.

Não adianta procurar a resposta nos bambambãs do vernáculo. O Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e mesmo o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras gastam seu latim com regras, não com conveniências. O mesmo se nota entre gramáticos de renome. Antenor Nascentes, Evanildo Bechara, Celso Cunha e outras sumidades fazem seus comentários mas não chegam a cravar preferência por nenhuma das duas formas.

Na vida real, "a presidente" tem ampla maioria de votos. A escritora Nélida Piñon sempre se apresentou como "a primeira presidente da Academia Brasileira de Letras", assim como Patrícia Amorim se considera presidente do Flamengo e Ellen Gracie foi presidente do STF - só para citar três casos. A CNBB, em mensagem oficial na segunda-feira, saudou "de maneira especial a sra. Dilma Rousseff, eleita presidente..." O Estado optou também por "a presidente", solução adotada praticamente pela unanimidade da mídia brasileira.

Os legalistas vão à raíz ae informam que "presidente", como outros termos terminados em "nte", são o que se chama comum de dois (uma palavra única para os dois gêneros, masculino e feminino) e não devem variar. Apenas o artigo define o gênero. O gerente, a gerente. O mesmo para amante, ouvinte, doente, estudante, pedinte, cliente, reclamante, etc. Portanto, Dilma Rousseff será "a presidente" do Brasil.

Mas já circulou, na praça, um cordão de feministas e simpatizantes dizendo que "presidenta" ajudaria a valorizar a mulher na sociedade brasileira. Também unificaria o tratamento no continente. Pois na Argentina Cristina Kirchner exige que a chamem de presidenta, como os chilenos chamavam a ex Michelle Bachelet. Cristina, na Casa Rosada, chegou a devolver documentos que vinham "no masculino".

Mas a guerra não acabou: há gramáticos, por aqui, dispostos a resistir. Um deles, Domingos Paschoal Cegalla, sustenta que presidenta "é a forma dicionarizada e correta". Outro, Cândido de Oliveira, considera "de bom senso gramatical" que os nomes terminados em "nte" tenham flexão. Um terceiro, Paulo Flávio Ledur, acha que o melhor é saber da própria Dilma o que ela quer.

Como o próximo governo leva todo jeito de continuísmo, a aposta é que ela não deverá mudar as coisas. Assim, não haverá um Café com a Presidenta. Ou haverá? Como se vê, tudo certo, mas nada resolvido.

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