Um capitel do Foro Romano em São Paulo

Na pequena Praça Nossa Senhora do Brasil, meio escondido entre as plantas, um capitel romano de mais de 2 mil anos, de mármore branco, encima uma coluna de granito rosa. Por sua vez incrustados num bloco de pedra, sobre o qual um homem alado sobrevoa o Cruzeiro do Sul. O Monumento aos Heróis da Travessia do Atlântico celebra o chamado ''Reide das Duas Américas'', de 1927, quando os aviadores Francesco De Pinedo e Carlo Del Prete, e o mecânico Vitale Zacchetti, num hidroplano Savoia-Marchetti, estiveram no Brasil, num voo entre Roma, Cabo Verde, Fernando de Noronha, Rio de Janeiro, Buenos Aires, que foi terminar no Arizona, nos Estados Unidos. Em São Paulo, o avião pousou na Represa do Guarapiranga. Ottone Zorlini mal havia chegado a São Paulo e venceu o concurso, em 1927, para construir o monumento que celebraria o feito da aviação italiana. De uma família pobre, ele nascera em Treviso, na Itália, estudara pintura e escultura em Veneza e dedicara boa parte de sua atividade à escultura funerária. A inauguração do monumento, à beira da represa, em 1929, ocorreu ainda no clima de emoção pela morte de Del Prete, no Rio de Janeiro, que em companhia de Arturo Ferrarin, em 1928, num hidroavião Savoia-Marchetti S.64, atravessara sem escalas o Atlântico, voando de Roma a uma praia de Natal, em pouco mais de 49 horas. Um triunfo da aviação. Poucos dias depois, Del Prete, fazendo reparos no avião, sofreu um acidente, teve uma das pernas amputada e acabou morrendo. No momento da inauguração, o nome de Carlo Del Prete era dado a ruas e praças de vários lugares do Brasil. No Cemitério do Araçá, junto ao sepulcro dos italianos caídos em guerra, que também celebra a memória dos italianos de São Paulo mortos na 1ª Guerra Mundial, um alto-relevo de bronze homenageia Del Prete, "caduto nel cielo de Rio", considerando-o, de fato, um combatente da italianidade.Zorlini teve a tarefa de colocar no monumento, típico do estilo da pintura e da escultura dos anos 1920, o capitel milenar, encontrado pouco tempo antes nas escavações do Foro Romano e doado pelo governo italiano aos italianos de São Paulo. Não era pouca a coincidência de ser Zorlini vêneto, como a maioria dos imigrantes italianos que vieram para São Paulo, especialmente para trabalhar como colonos nas fazendas de café do interior. Esse fora o motivo de sua decisão de imigrar para o Brasil. Vênetos eram também os povoadores dos núcleos coloniais de São Caetano, de Santana, de São Bernardo e da Glória, fundados pelo governo imperial, em 1877, na zona rural da capital, e muitos outros moradores da cidade. Participou do Grupo Santa Helena e pintou bairros e cenários das várzeas do Tietê, em que artistas daquele grupo se batizaram nas cores da Pauliceia.

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