Um curinga e muitas jogadas

À frente do PSD, Gilberto Kassab embaralha sucessão em SP

Julia Duailib, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2011 | 03h05

No sábado passado, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), participou da convenção estadual do PDT. Ao discursar, afirmou que teria orgulho "de passar o bastão para Paulinho", em referência ao deputado Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical, que diz ter intenção de disputar sua sucessão na Prefeitura. Embora a declaração não tenha sido original - um mês antes o prefeito havia dito em encontro do PC do B que teria "imenso orgulho de passar a faixa para o Netinho", o vereador Netinho de Paula -, foi recebida com entusiasmo pelo partido aliado.

Dois dias depois do encontro do PDT, Kassab mirou o PR. Na segunda-feira, foi até a sede da legenda em São Paulo. Lá se reuniu com as principais lideranças do partido no Estado, o vereador Antonio Carlos Rodrigues e o deputado Valdemar Costa Neto, pivô do escândalo envolvendo o Ministério dos Transportes há cerca de três meses. No encontro, Kassab também falou de eleição. Assim como na reunião com o PDT e o PC do B, cortejou os aliados, disse que gostaria do apoio do PR na disputa do ano que vem e traçou cenários eleitorais.

A semana avançou, e Kassab caminhou em direção à seara tucana. Reuniu-se com o governador Geraldo Alckmin e, na sexta-feira, com o secretário de Desenvolvimento Metropolitano, Edson Aparecido. Marcou o encontro para falar de investimentos na Região Metropolitana, mas discorreu novamente sobre a disputa eleitoral do ano que vem.

Em todas as conversas, Kassab traçou o que seria seu plano, com algumas diferenças no discurso a depender do interlocutor. No geral, reproduziu uma única receita: disse querer o apoio do PSDB a seu candidato em 2012. Em troca, apoiaria a reeleição de Alckmin.

Legado. Sem o ex-governador José Serra e o senador Aloysio Nunes Ferreira na disputa - Kassab não era entusiasta da candidatura do senador, mas teria de apoiá-lo por ser o nome de Serra -, o prefeito quer um candidato próprio para defender o legado, tarefa que se torna mais urgente em razão da queda na aprovação de sua administração.

Um nome de sua confiança defenderia sua gestão e daria o contraditório nos debates na TV e no horário eleitoral gratuito, quando adversários tentarão desconstruir a imagem de gestor.

A tese da aliança, promovida pelo prefeito, leva em consideração que o principal adversário na disputa será o PT, que atacará a gestão Kassab e usará a eleição municipal como parte de um plano maior, que é derrotar os tucanos no Estado em 2014. Além de PSD e PSDB atraírem o mesmo perfil de eleitor, há ainda a questão do discurso. Kassab era vice de Serra e foi reeleito em 2008 com o apoio de parte do PSDB. Manteve tradicionais quadros do partido na administração. Sem uma aliança com o prefeito, qual seria o discurso dos tucanos na eleição? De ataque à Prefeitura, espaço que já será ocupado pelo PT? Ou de apoio ao governo, figurino que caberá melhor no candidato a ser apoiado por Kassab?

Os entusiastas tucanos da aliança PSD-PSDB, principalmente o grupo ligado a Serra, creditam a derrota de Alckmin na eleição de 2008 à ausência de discurso. Também acham que o partido ficará isolado e com poucas alianças no ano que vem. Kassab, por exemplo, diz ter certeza de que o DEM, tradicional aliado dos tucanos, vai apoiar o PMDB, do deputado Gabriel Chalita.

Depois de aposentar a ideia de lançar o secretário municipal do Verde, Eduardo Jorge, que não se empolgou com a missão, Kassab tem hoje como principal aposta para candidato o vice-governador Guilherme Afif Domingos, que se coloca como "fiador" da aliança PSD-PSDB. O vice, no entanto, resiste à indicação, e Kassab voltou a insistir no nome do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, que se filiou ontem ao PSD - em março o Estado revelou que Kassab estava cortejando Meirelles para ser uma alternativa na eleição.

Nessa configuração, os tucanos poderiam indicar como candidato a vice um dos quatro nomes que querem disputar prévias no PSDB: os secretários Andrea Matarazzo (Cultura), José Aníbal (Energia), Bruno Covas (Meio Ambiente) ou o deputado Ricardo Tripoli. Em 2014, seria a vez de o PSD indicar Kassab vice de Alckmin.

"Será muito positivo se estivermos juntos, como temos estado desde 2004. Não há dificuldade numa aliança. É até o esperado", afirmou o ex-governador Alberto Goldman. "Já estamos com prévia marcada. O PSDB terá candidato próprio. Mas somos aliados ao PSD em São Paulo. Podemos ser grandes aliados no segundo turno", disse o presidente municipal tucano, Julio Semeghini.

Mas o plano de Kassab é para o primeiro turno. "Se não vierem com a gente no primeiro turno, não adianta procurar depois ", disse um fundador do PSD, para quem o caminho é apoiar o candidato do PT, se a nova legenda não passar para o segundo turno - essa tratativa depende também da intensidade dos ataques que os petistas farão à administração. Kassab, que montou seu novo partido com o apoio do governo, mantém boa relação com o Palácio do Planalto. Para esse interlocutor, "colocaram na cabeça de Alckmin que Kassab será seu rival em 2014, mas ele é novo ainda, pode esperar até 2018".

O governador paulista comentou a estratégia com seus aliados. Confidenciou a interlocutores que não acha Kassab confiável, mas disse para o partido "continuar jogando". Ou seja, caminhar com as prévias. "Kassab quer jogar para a plateia, mostrar que tentou a unidade. Assim, fica bem com o público externo. Ele está construindo uma forma de o PSDB ter de dizer não para ele", afirmou um tucano do Palácio dos Bandeirantes.

Tempo de TV. A aliança com o PSDB daria ao PSD tempo de TV. Independentemente do rumo da conversa com os tucanos, o PSD já decidiu que ingressará com uma representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) alegando que os deputados que ingressaram no partido devem trazer com eles o tempo de TV . O tribunal usa as bancadas formadas na Câmara na última eleição como parâmetro para distribuição dos minutos a que um partido tem direito na propaganda eleitoral gratuita.

O PSD vai aguardar o TSE se manifestar sobre a distribuição do fundo partidário, que segue a mesma lógica do tempo de TV. Isso ocorrerá na última semana de outubro, quando o PSD recebe a primeira parcela. A tendência é que o tribunal deposite apenas pedaço dos 5% do fundo que são distribuídos igualmente entre todos os 29 partidos constituídos.

O PSD vai argumentar que, desde que foi criado o mecanismo da fidelidade partidária, deixou de ter sentido a punição para parlamentares que migrassem de legenda. "Não tem sentido negar a ele uma bagagem que teve na urna", afirmou o secretário-geral do PSD, Saulo Queiroz.

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