Um dia depois, rotina do vício volta à cracolândia

No domingo, mais de 250 usuários de drogas deixaram a região durante blitz; retorno rápido, ontem, revoltou moradores e comerciantes

Marici Capitelli, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2009 | 00h00

Tudo voltou ao normal na cracolândia ontem, com as ruas tomadas por viciados consumindo e vendendo drogas abertamente. Os 265 usuários que haviam sido retirados por uma blitz da Polícia Civil no domingo retornaram às Ruas Guaianases, Vitória e Conselheiro Nébias, na região central. Durante todo o dia, cerca de 200 viciados ficaram perambulando de um ponto a outro, enquanto uma viatura da PM tentava impedir que eles se aglomerassem. Mas os policiais mal terminavam de passar e todo mundo voltava para o mesmo local. Diante disso, a Polícia Militar está organizando uma ocupação, em parceria com o Ministério Público e órgãos da Prefeitura.O retorno tão rápido dos viciados às ruas só aumentou a revolta dos moradores e comerciantes. Para eles, esse tipo de ação policial não tem efeito concreto. "É como se não tivesse acontecido nada. Eles só foram dar uma volta e retornaram. À noite já foi um inferno de novo e hoje (ontem) continua do mesmo jeito", reclamou o funcionário de um hotel que fica em um dos pontos preferidos dos usuários, no cruzamento das Ruas Conselheiro Nébias e Vitória.O funcionário está revoltado porque o proprietário vai fechar o empreendimento - os clientes sumiram. "Nem os taxistas trazem hóspedes até a porta do hotel. Largam a uma quadra e as pessoas nos ligam do meio da rua para irmos encontrá-las porque não têm coragem de vir andando", conta. "Não resolveu nada. Tivemos outra noite de inferno com gritarias, brigas e as portas amanheceram cheias de fezes e urina. Eles têm o direito de ficar nas ruas, mas nós perdemos o nosso de ir e vir", reclama a moradora de um dos prédios da Rua Vitória, dizendo que não tem mais coragem de sair de casa e os parentes não vão visitá-la porque sentem medo.Moradores de um prédio de sete andares na região contam que o tráfico age abertamente. Quase todas as noites, um homem em uma bicicleta passa gritando de megafone "a Guaianases é nossa, irmão, vamos trabalhar, olha o dado (crack) e a maconha fresquinha". "Se escutamos isso o tempo todo, como a polícia não escuta?", questiona uma moradora, que vive aflita porque o filho chega da faculdade à noite e tem de passar pela multidão de usuários.Ainda muito rouco, o morador de um dos prédios afirma que, na madrugada de sexta, dois rapazes que estavam em um Monza quase atropelaram um menino drogado. Em represália, foram cercados pelos usuários. "Ficamos desesperados de tanto gritar porque eles assaltaram e batiam nos rapazes, que quase foram linchados."O tenente-coronel da PM Osni Rodrigues de Souza, comandante do 13º Batalhão, afirma que são feitas ações constantes e as pessoas flagradas em atos ilícitos acabam encaminhadas à delegacia. Entretanto, se o grupo estiver apenas andando de um lado para outro, os policiais nada podem fazer - porque não é crime. "Estamos articulando uma grande operação em parceria com o Ministério Público e as áreas de Saúde e Assistência Social. A ideia é permanecer na região por pelo menos uma semana." Segundo ele, essa estratégia evitaria a ida e vinda dos usuários. "É uma operação complexa, que exige logística e, por isso, estamos organizando com muita calma. Ainda não há data."CHUVEIROUma das armas da população contra os drogados era um chuveiro instalado na marquise de um prédio na Rua Conselheiro Nébias, que jogava água nos viciados. Entretanto, no dia 2, a Prefeitura - depois de ter dito que a instalação não tinha irregularidade - intimou os responsáveis a tirarem a engenhoca. A alegação é de que não estava na planta aprovada na subprefeitura.

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