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Um em cada cinco motoristas admite usar celular enquanto dirige

Especialistas em trânsito dizem que se distrair com o equipamento favorece a ocorrência de acidentes e interfere na fluidez do tráfego de veículos. Infração é considerada gravíssima

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2019 | 19h46

SÃO PAULO - No trânsito, é comum ver motoristas utilizando o celular em ligações ou para envio de mensagens. O volume e o perfil dos brasileiros que têm esse hábito foram apresentados nesta segunda-feira, 24, em levantamento inédito do Ministério da Saúde, que apontou que um em cada cinco condutores utiliza o aparelho enquanto dirige.

A pesquisa utilizou dados levantados no ano passado e constatou ainda que jovens, entre 25 e 34 anos, e pessoas com mais de 12 anos de escolaridade lideram o ranking do motoristas que cometem a infração, considerada gravíssima pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB). O governo Jair Bolsonaro propôs ao Congresso projeto de lei que prevê elevar de 20 para 40 o número de pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) antes de ter o documento suspenso.

Os dados são do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) e foram coletados entre fevereiro e dezembro de 2018. Para o levantamento, foram ouvidas 52.395 pessoas de todas as capitais e do Distrito Federal.

A capital que teve mais condutores que admitiram utilizar o aparelho ao volante no mês que antecedeu a pesquisa foi Belém, seguida de Rio Branco, Cuiabá e Vitória. São Paulo apareceu no grupo de quem faz menos uso do celular no trânsito, ao lado de Rio e Manaus. Salvador teve o menor índice, com 14,2%.

Especialistas em trânsito dizem que se distrair com o equipamento favorece a ocorrência de acidentes e interfere na fluidez do tráfego de veículos. "Os riscos dessa prática já estão comprovados. As pessoas se preocupam com pontos na carteira e com multas, mas esses são mecanismos para evitar sequelas e mortes", avalia Luiz Célio Bottura, consultor em engenharia urbana e especialista em trânsito. "A facilidade que o celular propicia é um grande vetor de incentivo ao uso. Os carros mais modernos já vêm com maneira de integrar, na eletrônica do veículo, o celular. Isso é menos perigoso do que o convencional, que é segurar o celular, mas o motorista  está dividindo o momento de atenção."

Ele diz que o ideal seria que redes sociais não funcionassem enquanto os veículos estivessem em movimento. "A evolução dos celulares e da comunicação virtual precisa se preocupar com isso, porque não dá para se concentrar em duas coisas. A interação poderia ser postergada."

Engenheiro e mestre em transportes pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), Sergio Ejzenberg diz que o uso do equipamento para a comunicação é algo "inconcebível", mas pondera que o aparelho é útil quando utilizado para encontrar os melhores trajetos para se chegar a um destino.

"O celular não serve só para falar. Ele tem aplicativos de deslocamento urbano que são imprescindíveis. É mais seguro olhar a rota no aplicativo do que procurar por placas, o que pode gerar decisões de última hora que podem ser perigosas. Mas não dá para digitar, porque isso acaba causando acidentes gravíssimos. É preciso um controle dessa compulsão."

Segundo Ejzenberg, o motorista perde a noção do risco quando está distraído com o aparelho e não percebe o trajeto que faz em poucos segundos. "Um veículo roda 17 metros por segundo a 60 km por hora. Se a pessoa ficar cinco segundos sem olhar para a frente, vai andar por um quarteirão às cegas. É preciso deixar isso claro para todo cidadão que acha que não vai ter problema."

Sobre o dado de que pessoas com maior escolaridade acabam cometendo mais a infração, que soma sete pontos na carteira e tem multa de R$ 293,47, Bottura diz que a prática tem mostrado que "não é a escolaridade que dá a cultura" de respeitar as leis de trânsito.

Uso de telefone ao volante fez com que empresário quebrasse as duas pernas

Em abril, o empresário Thiago Martins, de 29 anos, quebrou as duas pernas após seu carro bater em um caminhão que freou bruscamente ao se deparar com um veículo que estava parado na Rodovia Ayrton Senna. "Era bem frequente usar o celular a caminho do trabalho. Ia respondendo e-mails e olhando o Whatsapp. Nunca bati o carro, mas já tive freadas bruscas por causa do telefone."

Ele ficou 15 dias internado, dos quais cinco foram na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). "Agora, já estou melhor. Abandonei a cadeira de rodas."

Estudo da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), com dados de 2017, constatou que as reações dos motoristas ficam até 35% mais lentas quando eles estão usando o celular ao volante. "Gastamos cerca de oito a nove segundos para atender uma chamada telefônica, contando desde o instante em que ouvimos o toque, até pegar o aparelho, desbloqueá-lo e atender a chamada. No caso de mensagens de texto, o tempo médio de resposta é de 20 a 23 segundos, que significam, caso o motorista esteja a 60 km/h, quase quatro quadras sem a completa atenção do condutor", informa a entidade.

Um estudo semelhante foi realizado, também em 2017, pelo Centro de Experimentação e Segurança Viária (Cesvi) e mostrou que o condutor pode passar por vários veículos ao ficar entretido com o aparelho e não perceber.

O tempo médio que uma pessoa perde lendo ou respondendo uma mensagem é de 1,48 segundo. A uma velocidade de 50 km/h, o veículo percorre 20,6 metros, o que equivale a dez motocicletas enfileiradas. Já para abrir uma rede social, o tempo pode chegar a 3,5 segundos e a distância percorrida, a 48,6 metros, que corresponde a 12 carros populares em fila.

De acordo com o Ministério da Saúde, 35,3 mil pessoas morreram por causa de acidentes de trânsito e 166.277 foram internadas no ano de 2017. "Os gastos com as internações foram de R$ 229,2 milhões. Além das sequelas emocionais, muitos pacientes ficam com lesões físicas, sendo as principais consequências amputações e traumatismo cranioencefálico", informa a pasta.

Celular na função GPS deve estar fixado no para-brisa ou no painel

O que diz a lei?

É proibido dirigir o veículo com apenas uma das mãos, exceto quando [o motorista] precisar fazer sinais regulamentares de braço, mudar a marcha ou acionar equipamentos e acessórios do veículo. No caso de o motorista estar segurando ou manuseando o celular, a infração é caracterizada como gravíssima.

O que é proibido?

É proibido qualquer tipo de manuseio do celular durante a condução do veículo. Ou seja, é proibido fazer ligações, digitar ou conferir mensagens. Essas condutas estão proibidas em todos os momentos em que o veículo estiver ligado, mesmo que esteja parado no engarrafamento ou no semáforo.  Também é considerada infração média dirigir utilizando fones de ouvidos.

O que é permitido?

O uso do celular na função GPS desde que esteja fixado no para-brisa ou painel dianteiro do veículo.

Outras infrações

Além do uso do celular, a pesquisa do Ministério da Saúde também analisou outros comportamentos de risco no trânsito. Entre os entrevistados, 11,4% afirmaram que já foram multados por excesso de velocidade no trânsito e o Distrito Federal tem a maior parte dos a maior parte dos registros (15,6%). Em seguida, vieram Fortaleza (14,5%), Porto Alegre (14,1%) e Belo Horizonte (13,7%). Manaus (0,9%), Macapá (2,7%), Belém (5,9%), Campo Grande (6,9%) e Porto Velho (7,1%) têm os menores índices.

O porcentual de condutores que dirigem sob efeito de álcool ficou em 5,3. Nesse quesito, Recife (2,2%), Rio de Janeiro (2,9%) e Vitória (3,2%) tiveram os porcentuais mais baixos. Palmas (14,2%), Teresina (12,4%), Florianópolis (12,1%) e Cuiabá (9,9%) registraram os maiores índices.

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