Um em cada três traficantes de ecstasy tem diploma

Porcentual entre aqueles que cursam ou concluíram o ensino médio chega a 40%

Bruno Paes Manso e Humberto Maia Junior, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2007 | 00h00

Estudante universitário de 19 anos, morador do Condomínio São Joaquim, um dos mais luxuosos de Vinhedo, no interior paulista, Felipe estava em frente de um posto de gasolina da cidade quando foi preso com 70 unidades de ecstasy escondidas no câmbio do carro. Rodrigo, de 27, formado em ciência da computação, técnico de sistemas de produtos, foi detido em flagrante em frente da multinacional onde trabalhava ao tentar vender 200 pontos de LSD a um policial. Renê, de 28, formado em agronomia, foi preso em Campinas durante uma festa rave, a Cabala, com 25 comprimidos de ecstasy.Para os policiais do Núcleo de Apoio e Proteção às Escolas (Nape), ligado ao Departamento de Narcóticos da Polícia Civil (Denarc), as prisões de pequenos traficantes de classe média que vendem ecstasy tornaram-se rotina em São Paulo. "Quando eles são flagrados, parecem nem acreditar que estão sendo presos, como se não associassem que o que estavam fazendo era crime", conta o delegado do Nape, Flávio Hengler Mirisola.Até novembro, uma em cada três pessoas presas em São paulo acusadas por venda de ecstasy tinha diploma universitário ou estava cursando uma universidade. Os dados são do Denarc, que prendeu 81 pessoas envolvidas com esse tipo de crime nesse ano. O porcentual entre aqueles que cursam ou concluíram o ensino médio também é elevado, chegando a 40% - índice bem acima do verificado em outros crimes, praticados na maioria dos casos por pessoas que pararam de estudar já no ensino fundamental. 91% BRANCOSA disparidade com outros tipos de crime também é verificada em relação à etnia dos presos por venda de ecstasy: 91% são brancos e 9% pardos. "É um outro perfil de criminoso, normalmente ligado à classe média alta", explica o delegado Rubens Barazal, da Divisão de Inteligência e Apoio Policial do Departamento de Narcóticos.No Rio, essa situação começa a aparecer agora. Desde que um jovem de 17 anos morreu com sintomas de overdose numa festa rave, há três semanas, 11 jovens de classe média foram presos acusados de vender a droga. Os delegados do Nape não se lembram de uma única vez em que o traficante detido por vender drogas sintéticas nas baladas estivesse armado. Carregam com eles no máximo 40 comprimidos, que vendem para conhecidos. "Eles se sentem os reis da noite", diz Antônio Carlos Machado Júnior, delegado divisionário do Nape. Nos últimos sete anos, a apreensão de ecstasy cresceu nove vezes no Brasil, passando de 16.796 cápsulas no ano 2000 para 157.984 até outubro deste ano. Em boa parte graças à infiltração de agentes à paisana em raves, muitos tatuados e falando gírias.MUDANÇA"Agora, todo mundo está meio cabreiro (desconfiado). Cada um fica na sua porque, quando menos se espera, pode ter um policial do lado", afirma o universitário Rodrigo, de 25 anos. Segundo ele, ao contrário de antes, atualmente é preciso conhecer o fornecedor e "manter a discrição" para usar balas (ecstasy) e doces (LSD). "Antes, o pessoal era mais espontâneo." O universitário Augusto, de 23, também sentiu a mudança. "Não dá para curtir a festa como antes. A liberdade acabou."

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