Um eremita da metrópole

Numa ilha da Avenida Pedroso de Morais, seu Raimundo mora há bem mais de 15 anos, pelos meus cálculos. Dia e noite, com chuva ou sem chuva, seu Raimundo está lá sentado. A longa barba e os longos cabelos desarrumados dão-lhe a respeitabilidade patriarcal de morador antigo e de eremita da metrópole. De dia, está sempre escrevendo. Quando adolescente, minha filha mais moça foi com um grupo de sua escola conversar com ele. Viera de Goiás, oriundo de uma instituição psiquiátrica. Escreve textos do que se poderia definir como antipsiquiatria popular, a crítica da institucionalização das vítimas da psiquiatria de confinamento e de choque. Ele é em carne viva a consciência crítica do encarceramento psiquiátrico, de que se considera vítima, que remete à transformação da pessoa doente em objeto dos que supostamente a dominam. Como Foucault, seu Raimundo entende que há na psiquiatria uma relação de poder, que desumaniza o interno. Diz que é o que é porque a isso foi reduzido pela psiquiatria. Mesmo uma entrevista com ele significa para ele roubo de um pedaço de sua pessoa, apropriação de algo que é dele. Talvez por isso tenha com as crianças uma relação diferente, de doação, às quais distribui seus escritos, que são um pedaço de sua pessoa. Em nossos movimentos messiânicos, como o que culminou na Guerra do Contestado (1912-1916), em Santa Catarina, a exaltação da criança tem a função simbólica da radical inversão das relações de poder. Seu Raimundo não está sozinho. Desde 1967, batizado e liderado por David Cooper, psiquiatra sul-africano, o movimento que ele encarna solitariamente numa rua de São Paulo chama-se Antipsiquiatria. Pelo mundo afora, tem tido manifestações singulares e, de algum modo, tem contribuído para uma revisão da doutrina e da prática do confinamento e da redução do paciente a objeto de ciência. Moradores do bairro próspero em que vive costumam visitá-lo para levar-lhe coisas ou para saber se carece de algo. É tratado como vizinho e conhecido. Seu Raimundo é um estoico, um cidadão do limite. Seus poucos objetos, catados por aí e reunidos, ficam devidamente guardados sob plástico preto para que não tenha o passante a impressão de que se trata de um monte de lixo. Ao seu redor, as coisas estão sempre arrumadas. Também ele se acomoda sob um plástico preto, seu único abrigo. Fica quase sempre sentado. Em dias de chuva, cobre-se com um plástico transparente e continua sentado. Em noites de chuva, sua sombra projetada no plástico pela luz dos faróis dos carros que passam lembra, às vezes, a escultura de Rodin, O Pensador.

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