Um lugar da memória

Não é a primeira vez que me falam na existência de fantasmas no prédio em que funcionou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na Rua Maria Antônia, hoje Centro Maria Antônia. Há algum tempo, um dos guardas conversava comigo a respeito e se estendia em detalhes sobre pessoas que teriam sido torturadas e mortas no recinto e até nele sepultadas. Um desvario. Tudo começou com uma placa afixada no acesso ao saguão que foi cenário de tantas maquinações políticas juvenis. Nela se celebra a memória dos que foram mortos pela repressão durante a ditadura militar. Logo, os criadores de fantasias começaram a inferir que tais mortos morreram lá. Sem dúvida, dos que morreram na tortura, houve os que por ali passaram, alunos da Faculdade ou frequentadores atraídos pelos debates do saguão e do Grêmio, cenários da indignação contra o regime. De uma dessas vítimas me lembro bem: Heleni Guariba, aluna de Filosofia, casada e mãe de família, que foi diretora e atriz do Grupo de Teatro da Cidade, em Santo André, e também atuou no Teatro de Arena. Em 1968, ela ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos Teatrais como diretora estreante, com uma peça de Moliére. Era militante da Vanguarda Popular Revolucionária. Foi presa e torturada pela OBAN em São Paulo. Solta, foi novamente presa, no Rio de Janeiro, por agentes do DOI-CODI, torturada e morta, dizem, na Casa da Morte, em Petrópolis. Seu corpo nunca foi encontrado. Lembro-me da última vez que a vi, sentada numa das carteiras antigas, que havia no saguão. Protestante, ela me chamava de "irmão". Ficamos ali conversando sobre amenidades numa tarde, ela com cadernos e livros nas mãos, esperando o início das aulas. Nunca mais a vi. Por ali estiveram também Iara Iavelberg e Aurora Maria Nascimento Furtado, alunas de Psicologia, mortas pela repressão, Ísis Dias de Oliveira, aluna de Ciências Sociais, e Helenira Rezende de Souza Nazareth, aluna de Letras, presas e desaparecidas. Muitos outros que por ali passaram e participaram das animadas conversas sobre um outro Brasil, justo e culto, acabaram no exílio ou presos. O primeiro docente a ser procurado, já em 1964, por dois agentes do Dops, foi o professor Fernando Henrique Cardoso. Alertado quando chegava para as aulas da tarde, conseguiu escapar. Alguns dias depois partia para o exílio, seguido da família. Dali saiu preso o professor Florestan Fernandes, levado ao Batalhão de Guardas do Exército, no Parque Dom Pedro II. Protestara contra a presença de um oficial do Exército na Faculdade, realizando inquérito policial-militar, intimando e interrogando, que mandava cantar o Hino Nacional e perguntava as cores da bandeira, como se estivesse numa escola primária. E pensar que com essa mentalidade a ditadura durou mais de 20 anos!

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