Um mundo novo. Feito de bronze

Obra da Pinacoteca pode ser tocada

Mônica Cardoso, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

29 Julho 2009 | 00h00

As mãos percorrem cada reentrância e descobrem um novo detalhe da grande escultura em bronze. A altura, a forma dos cabelos, os contornos dos braços, a textura do material. As rugosidades do piso tátil de borracha orientam o caminho, enquanto o audioguia descreve as características da obra. "À medida em que escuto a descrição do audioguia, vou tateando a escultura. A narração é bem pausada e cheia de detalhes como o tamanho da estátua, se a figura está em pé ou agachada, se os cabelos estão soltos ou presos, o que o autor quis dizer com a obra. É como se eu estivesse vendo. E consegui me virar sozinho no museu", conta José Bonifácio Carvalho Cunha, de 57 anos, que perdeu a visão há menos de dois por causa de um descolamento de retina. Essa é a primeira vez que o ex-motorista vai a uma exposição de arte e ele não encontrou dificuldades. "Quando eu podia enxergar, pensava: ?O que vou fazer em um museu se eu não entendo de arte?? Fui e achei maravilhoso." Proporcionar total autonomia ao deficiente visual é a proposta da Galeria Tátil da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Cada obra tem uma etiqueta em braile com o nome da obra e do artista. O audioguia em formato MP3, retirado gratuitamente na recepção do museu, orienta o visitante e comenta as obras. Além das características detalhadas de cada escultura, ele traz uma breve biografia do artista, o histórico da Pinacoteca e um glossário com termos artísticos. Para saber mais sobre as esculturas, desde o começo do mês, os visitantes contam com o apoio de um catálogo com figuras e textos em braile. Os materiais foram desenvolvidos em parceria com a Fundação Dorina Nowill. "A ideia é dar um direcionamento. Acredito que essa é a primeira galeria no Brasil que permite a visitação autônoma do deficiente visual", diz Margarete de Oliveira, assistente de Coordenação do Programa Educativo para Públicos Especiais (PEPA) da Pinacoteca. Antes, os deficientes visuais podiam visitar o museu acompanhados de um monitor, desde que fizessem agendamento prévio. A Galeria Tátil conta com 12 esculturas em bronze - que integram o acervo da instituição - de autores como Victor Brecheret (1894-1955) e Amilcar de Castro (1920-2002). Apenas deficientes visuais podem tocar as obras, que foram selecionadas com base justamente na preferência desse público. "Percebemos que eles tinham maior interesse e facilidade de entendimento por figuras que guardam histórias, como Moema, de Rodolfo Bernardelli (1852-1931), que conta a história de amor da índia com o português Diogo. Mas também incluímos obras abstratas, como a de Amilcar de Castro", conta Margarete. Para a seleção das obras, o museu conta ainda com a assessoria de um deficiente visual. Além de apreciar as esculturas, José Bonifácio aprendeu bastante na visita ao museu. "A escultura que mais gostei foi Leda (de Lelio Coluccini), que representa uma mulher grega que se apaixonou por Zeus, que estava transformado em um cisne. É uma história da mitologia bastante interessante", conta. E gostou tanto do passeio que já pensa em voltar à Pinacoteca com a mulher, que não é deficiente visual. MAC O pioneiro em exposições voltadas para deficientes visuais foi o Museu de Arte Contemporânea (MAC), localizado no campus da Universidade de São Paulo (USP), no Butantã, zona oeste. Desde 1992, o Projeto Museu e o Público Especial desenvolveu uma série de atividades para portadores de diversos níveis de deficiência, incluindo a visual. Na exposição O Toque Revelador, esculturas em bronze podiam ser tocadas pelos visitantes. Para permitir o toque de pinturas, reproduções dos quadros foram feitas usando materiais com diferentes texturas. A mostra dispunha de condições de acessibilidade como bancadas que permitiam a aproximação de cadeirantes e catálogos em braile. O projeto acabou em 2003, com a saída da educadora responsável pelo projeto, que hoje trabalha na Pinacoteca. Todo o material desenvolvido está parado no museu há mais de cinco anos. Desde então, nenhuma exposição voltada para deficientes visuais foi desenvolvida no museu. Segundo a Assessoria de Imprensa do MAC, o projeto não teve continuidade porque os educadores contratados desenvolvem projetos para outros públicos. O programa para deficientes poderá ser retomado se algum educador se interessar. Serviço: Pinacoteca do Estado: Praça da Luz, 2, Luz (a Galeria Tátil de Esculturas Brasileiras fica no 2º andar). Visitas de terça-feira a domingo, das 10 às 18h. Ingresso: R$ 6. Informações: 3324-0945

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