Um Niemeyer legítimo na favela

O Maquinho abriga oficinas para moradores de morro em Niterói

Clarissa Thomé, RIO, O Estadao de S.Paulo

11 de março de 2009 | 00h00

No alto do Morro do Palácio, favela na zona sul de Niterói, uma construção de traços sinuosos e fachada envidraçada destoa dos cerca de 800 casebres, onde vivem 4 mil pessoas. É uma obra de Oscar Niemeyer - o primeiro prédio público do arquiteto numa favela -, construída pela prefeitura para abrigar oficinas e laboratórios, além de uma sala de leitura para moradores.O Módulo de Ação Comunitária ganhou o apelido de Maquinho. Fica de frente para o MAC, museu destinado à arte contemporânea, projetado por Niemeyer e que se tornou símbolo da cidade. Se para imaginar o MAC o arquiteto tinha a inspirá-lo o generoso platô, que se debruça sobre a Baía da Guanabara, o Maquinho foi um desafio - o terreno, na encosta do morro, era exíguo. "Ainda não fui visitar, mas parece que ficou bom, combinou com a paisagem", diz Niemeyer.O arquiteto dispunha de um terreno de 600 metros quadrados, que foi praticamente todo aproveitado. O Maquinho tem dois andares, divididos em salas de oficinas, informática e biblioteca. Três dessas salas estão integradas num grande salão de exposições - mas a ideia é que divisórias de madeiras removíveis possam separá-las, de acordo com a necessidade.As ações culturais no Morro do Palácio começaram em 1999, com a intenção de integrar a comunidade vizinha ao MAC, inaugurado três anos antes. O morro, onde o tráfico de drogas é comandado pelo Comando Vermelho, está constantemente nas páginas policiais.Dos 4 mil moradores, 36,5% têm menos de 20 anos, segundo levantamento do Programa Médico de Família de 2007. Não há praças ou quadras de esporte poliesportiva. A área de lazer se resume a um campo de futebol.Para atrair os jovens, técnicos ligados ao museu passaram a oferecer cursos de grafite, laboratório de informática, aulas de dança e oficinas de jogos neoconcretos (desenvolvimento de jogos a partir da das obras que compõem a Coleção João Sattamini, que está no MAC desde a fundação)."O museu expandiu suas funções. Não é só um local que preserva obras e as expõe, mas um meio de transformação", diz Márcia Campos, diretora de Educação do MAC e coordenadora do Maquinho. "E os cursos aconteciam em diferentes locais do morro. Era necessário ter uma sede para o projeto."Niemeyer fez três projetos (gratuitamente) para o Maquinho - o primeiro em formato triangular e o segundo com quatro pavimentos. Houve dificuldade da prefeitura para desapropriar o terreno escolhido inicialmente e a verba para a obra minguou. Foi necessário fazer um prédio com proporções menores para o novo terreno.O Maquinho foi inaugurado em dezembro, com exposição de obras feitas por moradores do Morro do Palácio num projeto em parceria com o Museu Andy Warhol, Universidade Federal Fluminense e Oi Futuro. Mas o centro cultural fechou as portas antes do carnaval. Obras estruturais (escadas, elevador, divisórias) estão sendo concluídas. Mesmo assim, o local já virou atração na comunidade. "Ficou bonito. O espaço para os cursos é melhor. Praticamente todo dia eu vou ali", diz Marlon Moreira, de 16 anos, que tira todo o seu sustento do MAC e do Maquinho - desde 2002, faz curso de papel artesanal, vende a produção na lojinha do museu e foi contratado para fazer a limpeza externa do Maquinho.Niterói tem a segunda maior concentração de obras de Niemeyer - só perde para Brasília. Além do MAC e do Maquinho, o arquiteto projetou duas praças, o Memorial Roberto Silveira, o Teatro Popular e uma estação de catamarã - todos concluídos. O Museu Petrobrás de Cinema, complexo com cinco salas de exibição, auditório e shopping cultural, deve ser retomado neste semestre. A Fundação Oscar Niemeyer também está em construção. Ainda não saíram da prancheta a estação das barcas, uma igreja católica, uma capela e um templo evangélico. FRASESOscar NiemeyerArquiteto"Ainda não fui visitar, mas parece que ficou bom, combinou com a paisagem"Márcia CamposCoordenadora do Maquinho"O museu expandiu suas funções. Não é só um local que preserva obras, mas um meio de transformação"

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