Um oásis que resiste à verticalização de Moema

Psicopedagoga mantém paraíso de 1.280 m², que não trocou nem por cobertura de R$ 1,5 mi

O Estadao de S.Paulo

19 de julho de 2008 | 00h00

Na chácara de 1.280 metros quadrados, onde vive com o marido e os cães Sasha, Laika, Mika, Fortuna e Tobby, a psicopedagoga e terapeuta familiar Therezinha Rodrigues de Oliveira tem pitanga, cereja, jabuticaba e ameixa. Todas as manhãs, ela ainda reforça o desjejum dos passarinhos que aparecem no quintal com frutas deixadas nas árvores. Chegam maritacas, periquitos e sabiás - ali já pousou até gavião. Os pássaros se aglomeram no pinheiro de exatos 35 anos - plantado quando o filho mais novo nasceu. Outro pinheiro, de 37 anos, idade do filho mais velho, hoje está onde antes era o quintal do casarão, com três quartos e terraço em toda a volta, dos pais de Therezinha - dividido no espólio, o lote de 720 m² deu lugar a um espigão de 18 andares e apartamentos luxuosos de 180 m². Só o pequeno paraíso de Therezinha permanece intacto. É um oásis urbano no coração de Moema, uma das áreas mais valorizadas e verticalizadas da cidade. As construtoras chegaram a oferecer-lhe a cobertura (valor estimado: R$ 1,5 milhão). Nem assim Therezinha abriu mão do lugar onde passou a infância, brincou na rua, se casou e criou os filhos, num tempo em que ainda era possível ver, da janela de sua casa, o Parque do Ibirapuera, distante não mais do que 1 quilômetro, mas hoje separado por arranha-céus. "Eu não quis nem sentar para conversar. Isso aqui não tem preço", diz, caminhando entre as árvores do quintal. O pai de Therezinha chegou de Portugal com apenas 10 meses para morar em uma casinha de madeira na Avenida Moema. Fez a vida no bairro. Trabalhou com o irmão numa mercearia com mesinhas na rua, em plena Avenida Ibirapuera, então uma estreita pista por onde trafegavam bondes. No lugar do pequeno comércio estão, hoje, os bancos Santander e Unibanco. Ele fundou, depois, o Depósito Moema, que forneceu material para muitas das construções do bairro e, mais tarde, também acabou substituído por um prédio. Durante a vida, foi comprando um "pedacinho de terra aqui e outro ali". Nos 2 mil metros que conseguiu reunir, construiu, em 1956, quatro casas, além da própria: uma para a filha morar e as outras para aumentar a renda com aluguel. Hoje, estão cercadas de vizinhos que, da janela de seus apertados apartamentos, invejam o paraíso de Therezinha.

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