Um olho no altar e outro na bolsa

Na hora de fazer suas preces dentro da Catedral Metropolitana de Campinas, os fiéis precisam estar de olho no altar e na própria carteira. A intensa movimentação dentro do local, que fica aberto diariamente das 7h às 20h, tem facilitado a ação dos marginais da região central da cidade, que não respeitam sequer os padres.Da sacristia, já foram levados um aparelho de telefone, um castiçal e até mesmo uma batina. A urna de esmolas colocada sob os pés da imagem de São Sebastião também foi atacada.Nos bancos de madeira da igreja, a situação não é diferente. Rezar, agora, só com a bolsa colada ao corpo.A preocupação é tanta, que um segurança à paisana foi contratado para circular entre os freqüentadores durante 12 horas por dia."A Catedral não é um oásis maravilhoso em meio à violência que existe no Centro de Campinas. As pessoas aparecem aqui para rezar, conversar, namorar, dormir, trocar fraldas de bebês e até mesmo roubar", comenta o cônego Álvaro Ambiel, responsável pelo lugar que recebe até duas mil pessoas por dia em suas três missas durante a semana ou nas sete aos sábados e domingos.De tanto ver pessoas ao seu lado serem furtadas enquanto estão distraídas pedindo uma graça, a vendedora Márcia Valini, de 31 anos, adotou uma tática de sobrevivência durante as missas. Não tira a bolsa do colo em hipótese nenhuma. "Você não pode vacilar. Já muitas coisas acontecerem aqui", explica.A estudante Daniela Bordin, de 14, também já cansou de ver ladrões fugirem correndo da Catedral. "Os caras sempre estão com alguma coisa nas mãos", diz.Além de aproveitar os momentos tranqüilos entre uma missa e outra, os gatunos ainda atacam nas cerimônias em que a Catedral está lotada. "O que tem de gente que perde máquina fotográfica em batizado é incrível", comenta uma funcionária.Quando as vítimas não são os fiéis, ou os próprios padres, o alvo preferido dos ladrões são as caixas de donativos. Com arames estrategicamente entortados como anzóis, o mão-leve consegue retirar muitas das notas depositadas no fundo das urnas colocadas ao lado das imagens de santos."Já flagrei um rapaz forçando o cadeado para pegar o dinheiro. Esse pessoal também costuma abandonar carteiras e bolsas que conseguem roubar pelas ruas nos bancos da igreja", diz o segurança Edgar Santana, que guarda dezenas de documentos, cartões de banco e até carteiras de trabalho de vítimas que foram deixadas pelo chão. Ainda segundo o segurança, o pior horário para se estar dentro da igreja é perto do almoço.Para evitar que mais coisas sumam, os funcionários do local precisam atender a população com uma atenção redobrada. "O que está mais perto da gente ainda dá para cuidar. O problema é o que está em outras salas. Com o movimento que temos aqui, fica difícil controlar ou saber quem está levando algo", justifica uma funcionária que preferiu não se identificar."A minha dúvida é o que vão fazer com uma batina roubada. Ele não tem qualquer serventia fora da igreja", lamenta uma fiel.

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