Um ''quê'' de Itamar no jeito Dilma de governar

Sem se importar com a fúria dos aliados do PR nem com a real possibilidade de troco em votações no Congresso, a presidente Dilma Rousseff não está disposta a segurar nenhum auxiliar, seja ele ministro ou secretário, que tenha o nome sob suspeição.

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2011 | 00h00

A advertência não é apenas para o Ministério dos Transportes. Dilma avalia que errou a mão no tempo de blindagem do então ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, e quer sinalizar para os subordinados da Esplanada que a política pode ser feita de outro jeito.

Palocci agonizou durante 24 dias, acusado de ter multiplicado seu patrimônio em 20 vezes, em quatro anos, de 2006 a 2010. No domingo, 5 de junho, 48 horas antes de Palocci cair, a presidente disse a ele, no Palácio da Alvorada: "Você deveria ter pedido licença da Casa Civil. Se tivesse feito isso, nada teria chegado a esse ponto".

O afastamento, ainda que temporário, é uma prática que Dilma pretende adotar, de agora em diante, sempre que perceber consistência nas denúncias.

Há um quê de Itamar Franco nesse estilo. Em novembro de 1993, o então presidente Itamar dispensou o chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, acusado de desvio de dinheiro público durante as investigações da CPI do Orçamento. Inocentado, Hargreaves voltou ao Palácio do Planalto três meses depois.

Dilma não acha que foi precipitada ao ordenar as degolas no Ministério dos Transportes, no Departamento Nacional de Infraestrutura dos Transportes (Dnit) e na Valec, empresa que cuida das ferrovias, quando surgiram as primeiras acusações de superfaturamento de obras.

Na prática, ela tomou conhecimento, dias antes, das denúncias envolvendo pagamento de propina e reforço ao caixa do PR. Foi por isso que agiu rápido.

Apesar do senão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de ministros petistas e da cúpula do PT com a forma como a presidente afastou os auxiliares, sem conversar com ninguém, ela avalia que agiu bem.

Dilma não está preocupada, até agora, com reações de deputados e senadores do PR quando acabar o recesso parlamentar, em agosto, e muito menos crê que a governabilidade possa estar em risco.

O que a preocupa é o surgimento de uma guerra de dossiês na Esplanada.

Sem paciência para o varejo da política, Dilma vai continuar esticando a corda até o limite. Lula entrará em ação para acalmar a base aliada quando ela precisar.

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