Um réveillon de pouca violência surpreende o Rio

Num dos mais animados e tranqüilos réveillons dos últimos anos do Rio de Janeiro, mais de dois milhões de pessoas assistiram à queima de fogos nas areias de Copacabana. A chuva anunciada pela meteorologia apareceu pouco antes da virada do ano, mas tão fraca que ninguém se importou. O show pirotécnico promovido pela prefeitura durou 24 minutos (o dobro do ano passado e o maior desde a sua criação), encantou o público, mas a silhueta do Cristo Redentor ? prometida surpresa em homenagem à cidade ? só foi vista próxima ao Posto 3 ou nos telões instalados nos palcos.Cerca de 900 ocorrências foram registradas em toda a região metropolitana, o que equivale a um dia normal, de acordo com a secretaria. Entre as ocorrências mais graves, uma turista paulista e um homem foram atingidos de raspão por balas perdidas na passagem de ano na Praia de Copacabana e duas pessoas foram esfaqueadas.A paulista Maria Maura Moreira, de 39 anos, assistia ao espetáculo de fogos na areia, entre os Postos 2 e 3, quando, cinco minutos após a virada do ano, sentiu uma dor perto da axila esquerda. ?Estava comemorando e, de repente, senti algo estranho nas costas. Fui até um posto de saúde, a cerca de 20 metros de onde estava, onde fui muito bem atendida, e lá detectaram que havia sido uma bala. Fui levada para o (hospital municipal) Miguel Couto, onde retiraram a bala, e depois liberada?, contou hoje pela manhã, no hotel Glória, onde está hospedada desde terça-feira. Maria, que mora na capital paulista e é diretora de escola, disse que, no momento em que foi atingida, nem imaginou quepoderia ter sido baleada, pois relatou não ter visto nenhum tumulto ao seu redor e nem ouvido disparos. Embora tenha sentidomedo, contou que viu a queima de fogos por mais alguns minutos e só depois foi procurar atendimento médico. Segundo ela, abala pode ter sido disparada por alguém que, de forma irresponsável, resolveu comemorar a virada do ano atirando para o alto. ?Onde tem muita gente, existem pessoas que têm uma certa ignorância, que não sabem que, atirando para cima a bala cai epode acertar alguém. Acho que isso é falta de conhecimento. Isso pode acontecer aqui, na avenida Paulista ou em qualquer outro lugar?, disse.Um homem, que não foi identificado, também foi atingido no pé, próximo ao Posto 3. A polícia negou que tenha havidoconfrontou e acredita que o disparo tenha sido efetuado por algum morador da orla de Copacabana, que ?comemorava? a virada do ano. ?Não houve ausência ou ineficiência do aparato policial, mas irresponsabilidade de uma pessoa, que atirou a esmo. Nãoexiste bala perdida, mas tiro mal dado?, disse o chefe do setor de Planejamento do Comando de Policiamento da Capital,tenente-coronel Carlos Milagres. Ele lembrou que policiais ficaram espalhados por toda a extensão da Praia de Copacabana, alguns posicionados em 15 torresde observação. ?Foi um réveillon tranqüilo?, afirmou.Os bombeiros que atuavam em Copacabana só tiveram trabalho depois de um tumulto ocorrido logo após a queima de fogos, naRua República do Peru. Vinte pessoas ficaram feridas, sem gravidade, depois de um empurra-empurra. ?A confusão ocorreu porque algumas pessoas queriam voltar rapidamente para casa. Havia muita gente e começou um empurra-empurra. Algumas vidraças de edifícios foram quebradas, mas nada importante?, disse o coronel do Corpo de Bombeiros, Roni Alberto Fernandes de Azevedo.A paulista de Limeira, Sandra Zacharias, de 58 anos, passou o segundo ano consecutivo na praia. No primeiro ano, aindaassustada com o acidente na virada de 2000 para 2001, em que cerca de 50 pessoas se queimaram com os fogos, Sandra viu oespetáculo de longe. Ontem, ousou um pouco mais: conseguiu fazer oferendas para Iemanjá e assistiu ao show de luzes e coresda areia. ?Impressionante como tanta gente junta consegue fazer uma festa pacífica e bonita?, disse Sandra, que é professoraaposentada.Sandra levou uma capa de chuva, que comprou a R$ 1,99 e uma minigarrafa de Moët & Chandom. ?Achei que a chuva seria maisforte e vim prevenida. O champanhe é para dar sorte?, disse a professora, que não bebe e está na cidade desde o Natal. Da festa, Sandra só criticou o preço das corridas de táxi. Os motoristas ignoraram o taxímetro e criaram tabela própria. Pelo trecho entre Botafogo e Copacabana, que sairia a R$ 7, Sandra pagou R$ 50.Assim que acabou o espetáculo no céu, começou a cascata de fogos no Forte de Copacabana, que iluminou umparedão de 400 metros ? cem a mais do que o réveillon passado. Logo depois, o público admirou a tradicional queima de fogosdo Hotel Méridien, que durou quatro minutos, um a mais do que em outros anos. No Grupamento de Salvamento Marítimo dos Bombeiros, perto do Forte de Copacabana, a governadora Rosinha Matheus e osecretário de Segurança, Anthony Garotinho, seu marido, assistiam à festa. Apesar da multidão, houve apenas quatro registros policiais e 180 atendimentos médicos na Praia de Copacabana, a maioriacausada por excesso de bebida. Além dos shows de Lulu Santos, Los Hermanos e Jorge Aragão, o público ficou até de manhãpara ouvir as baterias das escolas de samba Mangueira, Beija-Flor e Grande Rio. Esta ano, a comemoração pela passagem de ano se dividiu pelas praias do Flamengo, Ipanema, Barra da Tijuca e LagoaRodrigo de Freitas. Pela manhã, o resultado da comemoração: 3.092 garis recolheram 305 toneladas de lixo em Copacabana ?20% a mais do que no ano passado. Em toda a orla foram 701 toneladas. Apesar do trabalho, os garis cantaram e batucaramnos ônibus que os levaram embora. Mesmo com o tempo nublado, a festa na Praia de Copacabana continuou durante todo o diade hoje.

Agencia Estado,

01 de janeiro de 2004 | 18h29

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.