Um rio para a favela que nada contra a maré

Dupla de artistas holandeses projetou painel de 2 mil m² na Vila Cruzeiro

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

14 Outubro 2008 | 00h00

Não se trata de mais uma ONG fazendo trabalho social em favelas do Rio. Em 2006, os artistas plásticos holandeses Jeroen Koolhass, de 31 anos, e Dre Urhahn, de 34, trocaram o inverno rigoroso de Amsterdã pelo calor de 40°C da favela Vila Cruzeiro, zona norte do Rio, ao lado do Complexo do Alemão, decididos a realizar uma experiência inusitada. Viver diariamente a rotina de uma das comunidades mais violentas do Rio e lançar o Favela Painting, um projeto que usa a arte para melhorar a auto-estima dos moradores. A primeira parte foi fascinante para a dupla, que aprendeu, entre outras coisas, a falar um português acima do razoável, a curtir um baile funk, a saborear churrasquinho com cerveja nas biroscas e a distinguir a diferença entre o som dos tiros de um fuzil FAL, usado pela polícia, e a de um AK47, dos traficantes. A segunda parte surpreendeu os moradores. No ano passado, Haas & Hahn, nome artístico dos holandeses, inauguraram o mural Menino Soltando Pipa, que ocupa a fachada de três casas na frente do campo de futebol. Agora, a ousadia é maior. No sábado, uma grande festa vai marcar a inauguração do Rio Cruzeiro, pintura de 2 mil metros quadrados feita no paredão de concreto de uma obra de contenção de encosta que atravessa a favela. Projetada pelo designer e tatuador holandês Rob Admiraal, a pintura traz enormes peixes vermelhos nadando contra a corrente num rio de águas azuis. "Vila Cruzeiro é um lugar tão excluído que acreditamos que com este trabalho podemos chamar atenção, mostrando um outro lado da comunidade", diz Jeroen, que os vila-cruzeirenses chamam de Jota. O Rio Cruzeiro, feito com a ajuda de adolescentes da comunidade, agradou não só aos moradores. Adriano, jogador da Inter de Milão, visitou em junho a comunidade onde nasceu e foi criado. Diante da pintura, ficou encantado. Os holandeses, é claro, registraram a visita em vídeo e foto. "Fiquei feliz de ver o que vocês estão fazendo por nós. De repente, uma criança vê e decide ser pintor", disse Adriano, na gravação que está no site favelapainting.com. A dupla também ouviu elogios tanto de soldados do Exército, que garantiram a tranqüilidade na favela no primeiro turno das eleições municipais, quanto de soldados do Bope, a tropa de elite da PM. O poder paralelo também aprovou a exuberância do desenho. "Acho que todo mundo gostou porque é leve e profundo ao mesmo tempo. Um rio passando pela comunidade, limpando tudo. Os peixes representam a luta de poder. Nadam contra a maré", explica Jeroen, que também faz ilustrações para a New Yorker e para produtos da grife italiana Prada. Nadar contra a maré, aprenderam os holandeses, é uma prática na Vila Cruzeiro. A favela ficou marcada pela violência do tráfico desde 2002, quando o jornalista Tim Lopes foi torturado e assassinado depois de ser flagrado por traficantes filmando às escondidas um baile funk. As operações policiais e as longas trocas de tiros com traficantes fazem parte do cotidiano. "O difícil de viver aqui é que os moradores nunca sabem como vai ser o dia seguinte. Um dia tem o Exército; no outro, o Bope. No outro, os traficantes dominam. Sempre tem alguém. Sempre tem arma", conta Dre, que mora num quarto alugado na casa de seu Elias, um pedreiro nascido e criado na favela. "Os moradores tentam levar uma vida quase normal. Isso é muito difícil." Jeroen não mora na Vila Cruzeiro. Extremamente alérgico, preferiu alugar um apartamento no centro do Rio, longe da poeira e dos gatos que transitam pela casa onde Dre vive. No trajeto diário de uma hora no ônibus da linha 313, entre a Praça Tiradentes e o coração da favela, já foi revistado várias vezes por PMs. "Os policiais acham estranho um gringo viajando para a Vila Cruzeiro." Nas operações policiais dentro da favela também já sabe como se comportar. "Eu jogo o pincel no chão para não confundirem com fuzil. Sento no chão e abaixo a cabeça. Se correr, eles atiram." Eles aprenderam também a conviver com os traficantes. "Funciona aqui o que vale em qualquer periferia do mundo: não passar informação para polícia e não fotografar os traficantes", conta Jeroen. Os dois chegaram à Vila Cruzeiro atraídos por um compatriota, Nako Van Burren, que mantém na favela o Ibiss, instituto que trabalha, entre outras coisas, para tirar jovens do tráfico. Para bancar a temporada carioca, Dre e Jeroen fizeram um leilão de artes na Europa com obras doadas por outros artistas. Arrecadaram 25 mil, cerca de R$ 75 mil. Em dezembro, eles voltam para a Europa. Ficarão seis meses na Holanda levantando fundos para o próximo projeto. Provavelmente, depois seguirão para a África. "Podemos ir para qualquer lugar onde exista jovens excluídos que precisem de atenção", diz Jeoren. "O Favela Painting era o nosso sonho. Esse foi o melhor trabalho que eu fiz na minha vida", acredita Dre.

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