Um Roberto Jefferson na Assembleia paulista

Falastrão e desbocado, pivô da crise das emendas avalia os próximos passos para manter vivo o sonho de ser prefeito de Birigui

FERNANDO GALLO, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2011 | 03h05

Desde 23 de setembro, quando vieram à tona suas acusações sobre a venda de emendas na Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado Roque Barbiere (PTB) paira como um barril de pólvora prestes a explodir no Legislativo paulista e no governo estadual. Além de sustentar que "entre 25% e 30%" dos parlamentares da Casa enriquecem vendendo emendas e que poderia dar até nove nomes ao Ministério Público, afirma que alertou duas secretarias de governo sobre o problema.

Até agora, no entanto, contou o pecado, mas não os pecadores. Transformou-se, por acidente verborrágico, em uma versão paulista de Roberto Jefferson, o pivô do mensalão. Em privado, já se mostrou arrependido do arroubo denunciador. Não recua pelo desagrado com alguns pares - não apenas pela suposta venda de emendas, mas sobretudo por uma quase obsessão: eleger-se prefeito em Birigui, sucedendo a seu principal desafeto, o atual prefeito, Wilson Borini (PMDB).

A cautela em declinar os nomes pelos quais muitos anseiam - e alguns temem - contraria os adjetivos com que mais o caracterizam aqueles que o conhecem de longa data: falastrão, boquirroto, desbocado, explosivo. Para tudo o mais, Roquinho não mede o que fala. Dispara contundências sempre que perguntado, e muitas vezes até quando isso não ocorre.

Em uma entrevista concedida há mais de um ano a uma afiliada do SBT no interior, criticou a Polícia Civil em Birigui: "Hoje a Polícia Civil é uma vergonha na nossa região", disse, para em seguida denunciar: "O maior roubo aqui da região. Três milhões de reais do Guaraná Paulistinha. Há denúncias de que 20% foram para a Polícia Civil. Pra quem? Não sou policial para investigar. Mas corre à boca pequena que 20% do auferido naquele assalto foram para tiras de Birigui".

Em outro vídeo, postado em seu blog em setembro de 2010, reclama de uma dupla de policiais que havia "filado uma boia" em um restaurante de sua cidade. "O policial tem que se comportar à altura, ele representa o Estado. Se ele ganha mal, vai trabalhar na Nasa, pô!"

A sinceridade de Barbiere não poupa sequer os colegas de Assembleia. Um deputado, que pediu anonimato, relata que certa vez contou a Roquinho que participou de um evento em uma das cidades do noroeste paulista, onde ele mantém base eleitoral. E ouviu de Barbiere, cioso de seu eleitorado, uma brincadeira que pensou ter fundo de verdade: "Não tem problema, venha sempre. O único problema é que depois eu vou ter que limpar as coisas que você faz".

Duas décadas. Ex-vice-prefeito e ex-vereador em Birigui, o petebista exerce seu sexto mandato consecutivo na Assembleia e é um dos deputados com mais tempo de Casa. Entrou no Legislativo em 1990, junto com o líder de seu partido, Campos Machado. Sempre foi um escudeiro fiel do correligionário. "O Roquinho sempre foi a tropa de choque do Campos. Quando o Campos quer enviar recados, manda o Roquinho para a tribuna", comenta um deputado que também pediu sigilo.

Desde que Barbiere começou a ser cobrado a dar nomes, e até ameaçado de processo por quebra de decoro caso não o faça, Campos tem atuado como seu advogado de defesa. Insiste, sempre que pode, inclusive no Conselho de Ética, que o colega tem de ser tratado como denunciante, e não como denunciado.

O manejo do líder do PTB no caso Barbiere se confunde com a derrota ainda não digerida na votação do projeto de sua autoria que retira do gabinete da Segurança Pública a Corregedoria da Polícia Civil. Integrantes da base governista avaliam que, enquanto Roquinho protela o apontamento de nomes, Campos ganha tempo para tentar recompor o prestígio abalado na Casa com a derrota sofrida e para reaver espaço perdido no governo José Serra (PSDB) e ainda não recuperado na gestão Geraldo Alckmin (PSDB).

Reduto. No interior do Estado, Barbiere leva uma vida rural. No sítio em que vive, em Coroados, a 5 km de Birigui, cria vacas, cavalos, porcos e galinhas. Frequentemente chama os amigos para pescar e faz as refeições ali mesmo, com as conquistas da pescaria.

Os parceiros de Birigui garantem que ele tem o coração do tamanho da sinceridade. "Se tem alguém doente que precisa de hospital em São Paulo, põe a assessoria à disposição", diz Marcelo Andorfato, amigo de Roquinho há 20 anos.

Barbiere não toma bebidas alcoólicas, mas fuma muito e é viciado em Coca-Cola. Gosta de futebol e, dizem, joga bem. Passava madrugadas jogando sinuca até conhecer a atual mulher, Ana Paula, 20 anos mais nova. Tem se dedicado a cuidar de Thereza Maria, filha recém-nascida prematura.

Enquanto isso, calcula se deve apontar nomes ao Ministério Público, e ainda quantos e quais. Disso dependerá a explosão do barril de pólvora em que ele mesmo se tornou.

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