Um roteiro para fazer cola de qualidade

Se horário eleitoral é ineficiente, há instrumentos que podem ajudar eleitor a escolher deputados

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2010 | 00h00

A sete dias da eleição, tem muito brasileiro que não está com a "cola" com os números dos candidatos pronta. O eleitor tradicionalmente deixa para decidir em quem votar para o Legislativo na última hora - e, neste ano, a seleção será entre 6.028 candidatos a deputado federal e 14.395 a estadual em todo o Brasil. É uma baita peneira.

O horário eleitoral não ajuda muito, já que os postulantes aos cargos proporcionais mal têm tempo de fazer um trocadilho infeliz com seu nome ou suas origens e aqueles mais sérios não conseguem expor suas propostas com profundidade. E a internet, que despontava como grande arma de informação nestas eleições, ainda não consegue abastecer os cidadãos eficientemente, já que os dados ficam dispersos ou se referem apenas a candidatos que já exerceram cargo público.

O eleitor fica, muitas vezes, desorientado e, assim, desinteressado. "Os partidos só têm programa de governo no nível Executivo, não têm propostas para o Legislativo. Cada candidato concorre do jeito que quer", diz Marco Antonio Teixeira, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas. "As legendas recrutam muito mal os candidatos, pensando somente na quantidade de votos que podem receber. A sociedade acaba não se apropriando da importância da eleição legislativa."

Para quem pretende se apropriar e fazer valer o voto nos parlamentares, há instrumentos que, se não são completos, podem ajudar a escolher antes de ir para a urna eletrônica. Alguns sites foram especialmente criados para isso. Outros servem a esse propósito indiretamente.

Questionários. Na primeira categoria, dois mecanismos de avaliação de afinidade com os candidatos estão disponíveis: o Extrato Parlamentar (www.extratoparlamentar.com.br) e o RePolítica (http://repolitica.com.br) . Ambos se propõem, a partir de questionários respondidos pelos internautas, a indicar os candidatos que mais têm a ver com o perfil do eleitor.

A diferença fundamental entre eles está nos critérios que definem essa afinidade. O RePolítica, criado por quatro jovens cariocas, faz oito perguntas sobre as posições do eleitor em questões amplas da política nacional. A indicação do candidato mais alinhado ao internauta se baseia em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), da ONG Transparência Brasil, mas também em opiniões dos próprios usuários sobre os políticos. Aliás, a ONG Transparência Brasil, em seu projeto Excelências (www.excelencias.org.br), é uma ótima fonte sobre a vida pública de quem quer nos representar. O site publica informações sobre 2.368 políticos - são todos os parlamentares em exercício no nível federal e estadual e ainda dos vereadores das capitais brasileiras.

Já o Extrato Parlamentar usa um modelo matemático construído por Rafael Lamardo, especialista em tecnologia da informação e professor de História da Ciência, e Andréa Freitas, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), para tabular as respostas dos internautas a 12 perguntas. "Chegamos a um algoritmo de certa complexidade, que leva em conta vários aspectos, mas principalmente a atuação em votações abertas do candidato quando ele era deputado federal", explica Lamardo.

O site nasceu dentro do Movimento Voto Aberto, para que, como o nome já diz, os votos dos parlamentares não sejam secretos. Lamardo e seus colaboradores trabalham agora para ampliar a avaliação às Assembleias Legislativas de cada Estado.

Para quem ainda tem dúvida também sobre o voto para senador, o endereço que pode ajudar é o do Questão Pública (www.questaopublica.com.br). O programa compara opiniões dos eleitores às dos candidatos ao Senado e também oferece um painel de afinidade. A comparação é feita a partir de um questionário de 35 perguntas, aplicado a candidatos e eleitores, sobre temas polêmicos que estão em debate na sociedade.

Novatos. A maioria dos sites tende a olhar "para trás" e oferecer uma avaliação do que os candidatos que já exerceram cargos parlamentares fizeram, pensaram e votaram. Os novatos acabam praticamente deixados de fora ou têm um perfil mais limitado. E a divulgação de suas posições fica por conta deles ou por conta dos partidos, que também não se esforçam tanto para dar informações completas ao eleitorado.

Os sites do PSDB nacional e dos diretórios estaduais, por exemplo, trazem a lista de candidatos, mas só com seus nomes e números. Já o site do PT nacional não publica essa lista, mas o do PT de São Paulo tem perfis e vídeos dos candidatos que se propuseram a responder a um questionário e a explicar suas propostas.

Critérios. Claro que todas essas pesquisas não entregam um resultado pronto de voto para o eleitor. São apenas sugestões, geradas a partir de métodos objetivos ou de deduções. Para o professor Marco Antonio Teixeira, é preciso levar em conta que os deputados influem nas nossas vidas de forma direta e indireta e pesquisar posições específicas e mais abrangentes dos candidatos. "Eles podem interferir no nosso cotidiano, com reformas como a trabalhista, ou nas grandes questões do País, com reformas como a tributária e da Previdência."

Teixeira acredita que o eleitor tem hoje muito mais recursos para pesquisar do que no passado. "Precisamos aprender a navegar pela vida do candidato da mesma forma como navega em busca de informações sobre a novela ou sobre esportes", sugere o cientista político.

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