Andre Dusek/AE
Andre Dusek/AE

Uma despedida em clima de apoteose

Antes de deixar a capital federal, Lula chora, beija pessoas e ouve banda tocar o hino do Corinthians e volta a São Bernardo ''de cabeça erguida''

Eugênia Lopes, Leonencio Nossa, Mariângela Gallucci, Roldão Arruda, Vannildo Mendes e Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2011 | 00h00

Lula foi mais Lula do que nunca no seu último dia como presidente da República, encerrado com o primeiro discurso como ex-presidente. Em São Bernardo do Campo (SP), resumiu sua sensação de dever cumprido e de ter superado "preconceitos" que, segundo ele, enfrentou ao longo de sua trajetória carreira política. "Volto para casa de cabeça erguida. Posso dizer na frente do meu povo que, depois de provar que um metalúrgico tem condições de ser presidente da República, nós elegemos uma mulher", afirmou, diante de cerca de 1,5 mil pessoas.

O ex-presidente chegou com atraso, às 22h45 de ontem, à festa preparada pelo diretório municipal do PT, com apoio da prefeitura comandada pelo petista Luiz Marinho. Antes, visitou seu ex-vice, José Alencar, no Hospital Sírio-Libanês. Lula chegou a São Bernardo acompanhado do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que havia prometido ao aliado "deixá-lo em casa" e foi aplaudido pelo público.

A recepção em São Bernardo encerrou um dia repleto de cenas que marcaram os oito anos de mandato de Lula. Em Brasília, o ex-presidente misturou-se a militantes petistas, chorou várias vezes, posou em formação de time de futebol com seus seguranças, compondo um verdadeiro concentrado de seu estilo exibido nos últimos oito anos. Das primeiras horas do dia com a família no Palácio da Alvorada até acenar da janelinha da cabine do piloto do Aerolula, na Base Aérea, por volta de 17h30, Lula despediu-se do poder em todos os momentos. Até o hino do Corinthians o ex-presidente ouviu ser tocado pela banda da Aeronáutica, enquanto subia no avião que o levaria a São Paulo.

Emoções. Antes de passar a faixa para a presidente Dilma Rousseff, o agora ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não conteve as lágrimas. Ao abraçar a sucessora, no gabinete do terceiro andar do Palácio do Planalto, na tarde de ontem, ele disse uma das poucas frases pronunciadas em público no seu último dia de governo. "Eu e o povo brasileiro confiamos em você", disse Lula a Dilma, com voz embargada, segundo relato de um dos auxiliares.

Com a ajuda da mulher, Marisa Letícia, ele passava logo depois a faixa para Dilma no parlatório do Planalto, diante da multidão que estava na Praça dos Três Poderes. Sem a faixa, Lula se conteve o quanto pôde, mas, ao descer a rampa do Planalto, às 17h35, caiu no choro outra vez.

Dilma e o vice-presidente Michel Temer quebraram a tradição e desceram a rampa junto com Lula. Ministros do governo seguiram o ex-presidente para também prestar uma última homenagem. "Agora é que vai cair minha ficha", disse ele, brincando com ministros. Ele quebrou o protocolo, atravessou a rua e foi cumprimentar homens e mulheres que se concentravam atrás do alambrado.

Com os olhos vermelhos e paletó desabotoado, Lula enxugou as lágrimas em um lenço branco, apertou a mão de eleitores, distribuiu beijos e abraços e recebeu um troféu de um adolescente cara-pintada. Enquanto ele se jogava nos braços da multidão, Dilma dava posse ao ministério.

Família. Lula passou a manhã no Palácio da Alvorada com Marisa Letícia e os filhos Fábio, Luiz Cláudio e Sandro. Da equipe mais próxima do presidente, só o chefe da segurança, general Gonçalves Dias, e o fotógrafo da Presidência, Ricardo Stuckert, estiveram no Alvorada.

Quando José Sarney declarou Dilma presidente da República, precisamente às 14h52, Lula ainda estava na residência oficial. Ele deixou o Alvorada já como ex-presidente. Cerca de 30 turistas o esperavam do lado de fora do Alvorada. Nenhum militante apareceu com cartaz ou bandeira do PT.

No Planalto, ele brincou com a própria despedida do poder, abrindo as gavetas do gabinete e se "espantando" por já estarem vazias. Os assessores tinham tirado até uma imagem antiga de Cristo na cruz e amostras de biodiesel. Lula chamou Marisa Letícia e os filhos para a última fotografia da família no gabinete presidencial. De um telão, acompanhou o deslocamento de Dilma do Congresso até o Planalto. Lula soltou poucas frases durante os apertos de mãos e abraços em funcionários e assessores. Atrás do vidro, acenou para a multidão que estava na Praça dos Três Poderes.

Antes de Dilma chegar ao Planalto, Lula apareceu no Salão Nobre. Acompanhado de Marisa Letícia, ele saiu abraçando e beijando os convidados. "Vocês estão com cara de ministro e eu de ex-presidente", brincou, assim que passou ao lado dos futuros ministros. Alertado da chegada iminente de Dilma, Lula saiu em disparada para a rampa do Planalto.

Atração. A descontração continuou depois que Lula passou a faixa para Dilma. Ele transformou-se, aliás, na principal atração da posse. Enquanto Dilma recebia cumprimentos de autoridades estrangeiras, Lula foi ao encontro dos convidados e autoridades, beijou e abraçou dezenas de pessoas e posou para fotos.

Um dos pontos altos da irreverência da solenidade ocorreu no ato de posse dos ministros. Uma menina acompanhou a ministra Tereza Campelo, do Desenvolvimento Social, no momento em que assinava o ato de posse. Minutos depois, a menina levantou a saia da ministra e foi repreendida por um parente. O protocolo foi tantas vezes quebrado que até um bebê em um carrinho desceu a rampa do Planalto na companhia de uma funcionária do cerimonial do Planalto, minutos antes de Lula voltar à rampa.

Antes de sair de cena, nas últimas horas de seu primeiro dia como ex-presidente, Lula reafirmou que não vai sair da vida pública, no discurso feito em São Bernardo. "O fato de eu ter deixado a Presidência não significa que eu tenha deixado a política", afirmou Lula. "Eu ainda tenho muita coisa a fazer."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.