Paola Bello/ONU Mulheres - 2021
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Uma em cada três venezuelanas no Brasil não consegue emprego, diz estudo da ONU

Desigualdade de gênero é destacada em pesquisa da ONU sobre política de integração de venezuelanos no Brasil

Luiz Henrique Gomes, especial para o Estadão

08 de dezembro de 2021 | 09h00

A venezuelana Johandri, de 28 anos, chegou ao Brasil no dia 18 de janeiro de 2018 e desde então mora em um abrigo em Boa Vista, Roraima, criado para migrantes e refugiados da Venezuela. Mãe de três filhos, viu o marido ir para Curitiba, no Paraná, trabalhar, mas não teve o mesmo destino. Há quase quatro anos no país, ela faz parte de um grupo composto por 34% das mulheres migrantes que sentem dificuldades de se integrar no país por não conseguir emprego formal.

A dificuldade de emprego entre venezuelanas no Brasil foi revelada por uma pesquisa realizada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) com a ONU Mulheres e o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), divulgada nesta quarta-feira, 8. A pesquisa analisou as consequências do programa de interiorização dos venezuelanos no Brasil, criado pelo governo federal em 2018. 

O programa de interiorização é baseado no deslocamento de migrantes e refugiados venezuelanos que, voluntariamente, sinalizam o desejo de começar uma nova vida em outros Estados brasileiros. Enquanto os homens têm mais facilidade para conseguir emprego no País, as mulheres enfrentam dificuldades por não terem como cuidar dos filhos na maioria dos casos. Nem todas conseguem vagas em creches.

Na grande maioria das vezes, a situação é agravada pelo fato de não terem parentes no Brasil. É o caso de Johandri. Ela chegou ao País sozinha em busca de condições melhores de vida, conheceu o atual marido em Boa Vista e retornou à Venezuela para buscar os dois filhos que haviam ficado com o seu pai. Pouco tempo depois, engravidou da filha mais nova, Sara.

Nos quatro anos que está no Brasil, a venezuelana chegou a trabalhar em Roraima como diarista, mas não conseguiu se manter na atividade porque não tinha com quem deixar a filha de 3 anos de idade. Ela ganhava R$ 30 por diária. “Era um dia sim, outro não. Mas era um valor tão baixo que eu não conseguia pagar alguém para ficar com a minha filha”, disse.

Johandri faz parte de um grupo de 3,8 mil mulheres venezuelanas que moram em abrigos do governo federal, mas está em processo de interiorização para reencontrar o marido em Curitiba nos próximos meses. Ela vai se juntar a um contingente de 28,4 mil mulheres venezuelanas que estão interiorizadas no país.

A venezuelana teme não conseguir se estabelecer financeiramente no País por conta das mesmas dificuldades vividas em Roraima com relação à família, mas ainda assim acredita que a interiorização é o caminho mais seguro para se estabelecer. “A princípio, não queria ir, mas por uma questão de estabilidade econômica estou aceitando”, disse.

Segundo os resultados da pesquisa, o desemprego entre as mulheres em abrigos, caso de Johandri hoje, é de 34%. Entre as mulheres interiorizadas, no entanto, a proporção é semelhante: 30%, contra 9% entre os homens. Isso significa 8,1 mil mulheres desempregadas, contra 2,6 mil homens. As mulheres também costumam levar quase 8 meses para conseguir emprego, dois meses a mais do que a média dos homens.

“O processo tem aprofundado desigualdades estruturantes de gênero, raça e cor, pois as mulheres interiorizadas têm maior taxa de desocupação laboral que os homens e apresentam um rendimento médio menor, particularmente as mulheres negras”, afirma a pesquisa.

A saída para muitas mulheres é se tornarem autônomas para trabalharem em casa. Alguns abrigos ofertam oficinas e programas para incentivar a geração de renda. Como resultado, a pesquisa também identificou que a informalidade entre elas é o dobro do que entre os homens. São 6,3 mil mulheres no trabalho informal, contra 3,2 mil homens.

A pesquisa da Acnur conclui que o programa de interiorização do governo federal tem resultados positivos, mas precisa avançar nas considerações de gênero. “Essas dimensões de gênero devem ser levadas em consideração ao formular políticas voltadas para a população venezuelana”, diz.

Enquanto isso, as mulheres migrantes continuam chegando ao país na tentativa de ter mais condições de vida. “Meu sonho é ter minha casa e dar aos meus filhos o melhor que posso dar para eles. Quero ver eles na escola e também quero poder ajudar o meu pai, que está na Venezuela”, contou Johandri.

Emprego e renda

A pesquisa da Acnur também revelou que a renda média mensal da população venezuelana interiorizada e ocupada acima de 18 anos de idade é de R$ 1.325,20, mais que o dobro dos rendimentos da população que segue abrigada pela Operação Acolhida, cujo valor médio é de R$ 594,70. Mesmo em melhores condições que a população abrigada, a população venezuelana realocada que está empregada ainda ganha cerca de metade da renda da população brasileira (R$ 2.433).

As desigualdades por gênero, raça e cor revelam uma diferença ainda maior. Entre os homens brancos interiorizados, a renda média é de R$ 1,5 mil. Entre as mulheres negras, R$ 1 mil.

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